A beleza dos detalhes
Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 27/05/2026
Este livro foi elaborado pela Editora Rocco e traz 43 crônicas escritas por Clarice Lispector entre 1967 e 1974 para o Jornal do Brasil, a escritora narra fatos de sua vida, buscando identificação e intimidade com os leitores sobre amor e amizade, passando por temas como a relação entre homem e mulher, família, religião, infância e adolescência. Por exemplo, "Amor imorredouro" ela conta quando conheceu um taxista viúvo há 14 anos, e ele não conseguiu se apaixonar por outra mulher, e acreditou que Clarice estava seduzindo-o. Em, "Por não estarem distraídos", narrando de forma impessoal fala sobre "eles" e não diz quem são, o uso de expressões como "o brilho da água da boca deles" faz o leitor direcionar sua atenção para as minúcias dos personagens.
A crônica "O grupo" é uma das mais interessantes, lemos o reencontro da escritora com duas amigas, as três fizeram faculdade de Direito, porém só uma exerce a advocacia, e não é a Clarice, mesmo assim, ela pensa em sua graduação, aparentemente, inútil, de forma otimista. O relato "Três encontros que são quatro" é sobre três encontros inesperados que ela teve, sendo o primeiro ruim, segundo bom e o terceiro melhor ainda. As histórias "Uma revolta" e "Homem se ajoelhar" têm apenas algumas linhas sendo o entendimento muito direto..."O presente", a autora questiona o leitor em relação à solidão, "Ao que leva ao amor" lemos o diálogo de um casal.
O livro aborda diferentes formas de amar, entre homem e mulher, mostrando todas as suas camadas biológica, social, afetiva e relacional, de pessoas por animais, é o caso de "Uma história de tanto amor" é sobre donos apegados aos seus bichos de estimação, o primeiro é protagonizado pela própria escritora. A ideia do "amor não correspondido" está bem presente em "Lúcio Cardoso" um famoso dramaturgo dos anos 40 e 50 por quem Clarice foi apaixonada, mas nunca tiveram um relacionamento, já em "As dores da sobrevivência: Sérgio Porto" ela lamenta a morte de um escritor e amigo.
Foi minha primeira experiência lendo Clarice Lispector, ela faz o leitor se sentir o "centro do mundo" em alguns momentos, já em outros um "simples coadjuvante", principalmente, quando se trata da vida de outrem, cada um é secundário, ou onisciente na vida alguém. São prosas com foco no cotidiano almoço em família, reunião de amigas, volta de táxi, a característica de todas elas é pouca ação, então é necessário imaginar, mais do que isso, perceber e sentir, por meio das figuras de linguagem, ironias, simbologias, ela escreve com intimismo e nos mostra o seu mundo interno, lembramos do sabor de bebidas e comidas colocando em evidência o caráter sinestésico de sua escrita. O tom geral do livro é de leveza, cada crônica aborda sensações diferentes, causando um misto de estranheza com encantamento, é muito marcante que com pouquíssimas palavras ela "constrói" as narrativas na mente daquele lê.
Crônica - "saudade"
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
Um trecho da crônica - "olhava longe, sem rancor"
"Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos."
País de origem: Brasil
Nome: Crônicas para Jovens: de amor e amizade
Autor: Clarice Lispector
Editora original: Rocco
Ano original de publicação: 2010
Editora: -
Tradução: -
Ano de publicação: 2022
Páginas: 141











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