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sábado, 25 de julho de 2026

CRÍTICA| TERRA SONÂMBULA, DE MIA COUTO

Árduo e bonito 





Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 07/07/2026  

É um romance de Mia Couto sobre a vida no Moçambique após libertação de Portugal e quinze anos de guerra civil - apresentando a literatura lusófona para além dos livros portugueses. Seguimos duas linhas narrativas de forma alternada - uma se passa no princípio dos conflitos e a outra depois. A história de Kindzu começa no fim dos anos 70, na costa do país, filho do pescador Taímo, irmão mais velho de Junho, um jovem que desaparece quando sai para praticar capoeira, sua jornada tem saltos temporais e acompanhamos o personagem em vários momentos da vida. 

Um tempo após o falecimento do pai, Kindzu decide sair de sua comunidade abandonando a mãe, com o objetivo de se tornar um guerreiro Naparama, fato que lhe atormenta, assim como, o falecimento do pai. Também, conhecemos Farida, moça que perdeu mãe e irmã, porque sua aldeia considera ter irmã - gêmea uma maldição, apesar de ser escolhida para continuar viva está traumatizada e isolada, casualmente, aparece na porta de um casal, Dona Virgínia e Romão Pinto, ela tenta ajudá-la e a acolhe, trata Farida como se fosse filha, por causa assédio do seu marido Virgínia envia a moça para uma igreja chamada Missão, ademais tenta voltar para o seu clã, mas é proibida.           
 
Farida tem um filho, ela lhe dá o nome Gaspar, mas não quer assumi-lo e com a ajuda da mãe adotiva, Gaspar é enviado para a Missão, porém, a moça nunca visitou o filho, quando quis, ele não estava mais na instituição. Kindzu e Farida se conhecem no litoral de Matimati, eles fazem amor e ele fica dividido entre ajudá-la a encontrar o filho ou se tornar um naparama. Fundada nos anos 1980, a milícia dos Naparamas é um grupo de guerreiros do Moçambique, lutaram contra extremistas da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) e ajudaram a Frelimo (Frente de Libertação Moçambicana).      

A segunda linha narrativa acontece no fim dos conflitos (começo da década de 1990), é protagonizada por um menino corajoso e ágil chamado Muidinga e Tuahir um velho bravo, cuidadoso e sábio, juntos eles percorrem uma estrada devastada, encontram um ônibus ou machimbombo queimado e enterram os corpos para se alojar. Ao longo do trajeto, os dois veem um elefante e um cabrito, assim como, interagem com seres sinistros, veem rituais. Tuahir e Muidinga encontraram dentro do ônibus um caderno com relatos, Muidinga lê ao seu protetor...A relação deles é muito especial e termina de forma intrigante. O livro contém muitas subtramas, por exemplo, a do Assane, ele acoberta os crimes de corrupção do seu chefe, o Administrador Estêvão Jonas envolvido em desvios de recursos de causa humanitária.         

Trecho da página 93: 
"...Ambos queríamos partir. Ela queria sair para um novo mundo, eu queria desembarcar numa outra vida. Farida queria sair de África, eu queria encontrar um outro continente dentro de África. Mas uma diferença nos marcava: eu não tinha a força que ela ainda guardava, não seria nunca capaz de me retirar, virar costas. Eu tinha a doença da baleia que morre na praia, com olhos postos no mar. Certa vez ela se chegou grave. Colocou suas mãos nas minhas e deixou o silêncio pousar. 
Depois, me pediu: - Quando saíres daqui quero que vás procurar meu filho. Hei-de levar Gaspar comigo..."

O Moçambique foi colônia portuguesa por 500 anos, tornou-se independente guerreando contra Portugal, quando conseguiu sua liberdade em 1975, foi fortemente atingido pela Guerra Fria, pois em 1977, começou a Guerra Civil, entre a Frelimo, apoiada pela União Soviética, e a Renamo, pelos EUA. "Terra Sonâmbula" é poesia em prosa, sendo suas características rima e sonoridade, insere simbolismos e neologismos; são abordados com profundidade aspectos culturais e naturais, mitos, inclusive, o autor poderia ter explanado mais a vida animal.  

A região costeira de Matimati é o local principal do arco narrativo de Kindzu, um detalhe interessante é que Mia não enfatiza quando e onde os enredos se passam, características de uma ficção comum. Embora, seja livro com pano de fundo muito trágico e o título carrega as tragédias que devastaram o país, a exploração europeia e a guerra causaram não são as únicas causas do sofrimento dos personagens. Refletindo sobre o doloroso capítulo "Filha do Céu", sobre Farida, ainda assim, Mia Couto entrega um livro poético e extenuante, prevalecendo diversos aspectos culturais e naturais na construção dos personagens que os faz se transformarem ao longo de sua jornada.                

Ficha técnica do livro


País de origem: Moçambique 

Nome: Terra Sonâmbula 

Autor: Mia Couto 

Editora original: Editorial Caminho

Ano original de publicação: 1992

Editora no Brasil: Companhia das Letras

Tradução:

Ano de publicação: 2007

Páginas: 206