"Holocausto Brasileiro" é um livro-reportagem escrito pela jornalista Daniela Arbex, sobre o maior hospício que existiu no Brasil, o Colônia, em Barbacena - Minas Gerais, apresentando um grande levantamento histórico, de sua fundação em 1903 ao seu fechamento em 2006, com histórias de pacientes e funcionários, descrições dos acontecimentos, fotos antigas e atuais. A instituição foi construída na Fazenda da Caveira, propriedade de Joaquim Silvério dos Reis, seu primeiro diretor foi Dr. Joaquim Antônio Dutra. Durante décadas acumulou denúncias e controvérsias, foi comparado a campo de concentração nazista pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia e teve sua realidade exposta internacionalmente por vários médicos e jornalistas.
Muitos dos pacientes eram apanhados na Estação Bias Fortes (BH) e iam para o Colônia no "trem de doido", nome dado por Guimarães Rosa ao transporte que os levava ao seu destino, aos vinte anos Marlene Laureano foi contratada em 1975, ela ia ser atendente psiquiátrica, sua função era tratar o capim que os pacientes comiam e no seu primeiro dia de trabalho se deparou com um cadáver no meio dos pacientes. Geraldo Magela Franco era vigilante, foi admitido em 1969 e saiu 1998, viu diversos fatos na instituição, diz para jornalista que não tinha recomendações para lidar com os pacientes, aprendeu com os mais velhos, por exemplo, aplicar e dar remédios, quando se exaltavam ou ficavam irritados davam injeções para se acalmarem, em casos de epilepsia também usavam injeções para tratá-los.
O tratamento problemático está além da falta de preparo na aplicação de medicamentos e enfermeiros e médicos incompetentes, os pacientes contraíam doenças e sofriam humilhações, bebendo água do esgoto, ficavam dias sem roupas, estupros e espancamentos eram praticados tanto por funcionários, quanto pelos próprios pacientes. No Brasil, até o começo do século XXI, eram comuns internações por doença mental acontecerem sem diagnóstico, no Hospital Colônia de Barbacena, a maioria dos internados não tinham doenças mentais, alcoólatras, homossexuais, mulheres engravidadas por seus patrões, epilépticos, melancólicos, mendigos, tímidos, muitas pessoas foram colocadas pela própria família.
Em 1961 o Secretário Roberto Resende estava preparando uma varredura na área de saúde e atraiu a atenção da imprensa, logo as tragédias começaram ser reveladas pela revista "O Cruzeiro" e pelo jornal "O Estado de Minas", a revista carioca enviou o jornalista José Franco e o fotógrafo Luiz Alfredo, pelo periódico mineiro foram Hiram Firmino e Jane Faria. No dia 14 de maio de 1961 a reportagem de Franco e Alfredo foi publicada com o título "A sucursal do Inferno", os registros revelaram um local de degradação humana, com mortes em massa e sistemáticas, a investigação mostrou a realidade sádica da instituição, chocando profundamente os jornalistas, entretanto o Centro Psiquiátrico de Barbacena não foi atingido. Pelo jornal estadual Hiram e Jane produziram a matéria intitulada "Os Porões da Loucura" em 1979, eles entraram no hospício após conseguirem permissão do Secretário de Saúde, Eduardo Levindo Coelho, Hiram passou o dia inteiro entrevistando pacientes, coletando informações, observando métodos e condições às quais eles eram submetidos, pois buscou retratar a vida no local e o trabalho culminou numa matéria triste e reveladora de injustiças, manipulação, abusos, violência.
Também, naquele ano (1979) veio ao Brasil o psiquiatra italiano Franco Basaglia responsável pela reforma psiquiátrica na Itália, ele comparou o Colônia aos campos de concentração nazistas, e disse que precisavam fechá-lo imediatamente. O psiquiatra Ronaldo Simões Coelho se formou pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1959 e, no final dos anos 70 era chefe do serviço psiquiátrico da Fundação Hospitalar do Centro Psiquiátrico do Estado de MG (Fhemig), no terceiro III Congresso Mineiro de Psiquiatria discursou denunciando o Colônia e suas atrocidades, ele foi demitido da Fhemig, mas sua atitude impactou a ala médica e política do país, a partir dessa necessidade foi criada a Lei Federal 10.261/2001 com base em um Projeto do Deputado Federal Paulo Delgado (PT - MG), para regulamentar a saúde mental, desativar hospitais psiquiátricos, incluindo o Colônia, e reestruturar sistema psiquiátrico.
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Acima e, à direita R. S. Coelho em foto de 1970 e abaixo em foto mais recente. |
O leitor se vê diante de muitas informações de épocas passadas, contudo refletir sobre o Genocídio do Colônia de Barbacena, que aconteceu por décadas, é uma oportunidade de conhecer o Brasil do século passado nas questões de saúde mental e sua relação com o Poder Público, sua fundação foi no período da República Velha, quando a política era autoritária e centralizadora, portanto, muitas pessoas foram mandadas para o Colônia, porque foram subjugadas por famílias muito ricas, oligarcas, juízes, advogados, entre outras pessoas "com poder político". As mortes sistemáticas e com requintes de crueldade foram expostas por jornalistas e médicos levando ao fechamento, porém nunca houve punições. Daniela Arbex escreveu um grande marco do jornalismo investigativo, entrevistas com vítimas e várias fontes, relatando perspectivas, abordagem nua e crua dos fatos, contextualizando a época de cada fato apresentado, mais um grande marco é a discussão sobre saúde mental e a incompetência das instituições de saúde em uma época que a sociedade brasileira clamava e precisava de transformações.
País de origem: Brasil
Nome: Holocausto Brasileiro
Autora: Daniela Arbex
Editora: Intrínseca
Ano de publicação: 2013
Número de páginas: 277