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sábado, 22 de março de 2025

CRÍTICA - HOLOCAUSTO BRASILEIRO, DE DANIELA ARBEX

Rico em informações e nuances,
 livro aborda e explana uma das maiores 
tragédias do Brasil 



Escrito por Victor Hugo de Campos
em 05/03/2023



"Holocausto Brasileiro" é um livro-reportagem escrito pela jornalista Daniela Arbex, sobre o maior hospício que existiu no Brasil, o Colônia, em Barbacena - Minas Gerais, apresentando um grande levantamento histórico, de sua fundação em 1903 ao seu fechamento em 2006, com histórias de pacientes e funcionários, descrições dos acontecimentos, fotos antigas e atuais. A instituição foi construída na Fazenda da Caveira, propriedade de Joaquim Silvério dos Reis, seu primeiro diretor foi Dr. Joaquim Antônio Dutra. Durante décadas acumulou denúncias e controvérsias, foi comparado a campo de concentração nazista pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia e teve sua realidade exposta internacionalmente por vários médicos e jornalistas. 



Muitos dos pacientes eram apanhados na Estação Bias Fortes (BH) e iam para o Colônia no "trem de doido", nome dado por Guimarães Rosa ao transporte que os levava ao seu destino, aos vinte anos Marlene Laureano foi contratada em 1975, ela ia ser atendente psiquiátrica, sua função era tratar o capim que os pacientes comiam e no seu primeiro dia de trabalho se deparou com um cadáver no meio dos pacientes. Geraldo Magela Franco era vigilante, foi admitido em 1969 e saiu 1998, viu diversos fatos na instituição, diz para jornalista que não tinha recomendações para lidar com os pacientes, aprendeu com os mais velhos, por exemplo, aplicar e dar remédios, quando se exaltavam ou ficavam irritados davam injeções para se acalmarem, em casos de epilepsia também usavam injeções para tratá-los.  



O tratamento problemático está além da falta de preparo na aplicação de medicamentos e enfermeiros e médicos incompetentes, os pacientes contraíam doenças e sofriam humilhações, bebendo água do esgoto, ficavam dias sem roupas, estupros e espancamentos eram praticados tanto por funcionários, quanto pelos próprios pacientes. No Brasil, até o começo do século XXI, eram comuns internações por doença mental acontecerem sem diagnóstico, no Hospital Colônia de Barbacena, a maioria dos internados não tinham doenças mentais, alcoólatras, homossexuais, mulheres engravidadas por seus patrões, epilépticos, melancólicos, mendigos, tímidos, muitas pessoas foram colocadas pela própria família. 


Em 1961 o Secretário Roberto Resende estava preparando uma varredura na área de saúde e atraiu a atenção da imprensa, logo as tragédias começaram ser reveladas pela revista "O Cruzeiro" e pelo jornal "O Estado de Minas", a revista carioca enviou o jornalista José Franco e o fotógrafo Luiz Alfredo, pelo periódico mineiro foram Hiram Firmino e Jane Faria. No dia 14 de maio de 1961 a reportagem de Franco e Alfredo foi publicada com o título "A sucursal do Inferno", os registros revelaram um local de degradação humana, com mortes em massa e sistemáticas, a investigação mostrou a realidade sádica da instituição, chocando profundamente os jornalistas, entretanto o Centro Psiquiátrico de Barbacena não foi atingido. Pelo jornal estadual Hiram e Jane produziram a matéria intitulada "Os Porões da Loucura" em 1979, eles entraram no hospício após conseguirem permissão do Secretário de Saúde, Eduardo Levindo Coelho, Hiram passou o dia inteiro entrevistando pacientes, coletando informações, observando métodos e condições às quais eles eram submetidos, pois buscou retratar a vida no local e o trabalho culminou numa matéria triste e reveladora de injustiças, manipulação, abusos, violência.



Também, naquele ano (1979) veio ao Brasil o psiquiatra italiano Franco Basaglia responsável pela reforma psiquiátrica na Itália, ele comparou o Colônia aos campos de concentração nazistas, e disse que precisavam fechá-lo imediatamente. O psiquiatra Ronaldo Simões Coelho se formou pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1959 e, no final dos anos 70 era chefe do serviço psiquiátrico da Fundação Hospitalar do Centro Psiquiátrico do Estado de MG (Fhemig), no terceiro III Congresso Mineiro de Psiquiatria discursou denunciando o Colônia e suas atrocidades, ele foi demitido da Fhemig, mas sua atitude impactou a ala médica e política do país, a partir dessa necessidade foi criada a Lei Federal 10.261/2001 com base em um Projeto do Deputado Federal Paulo Delgado (PT - MG), para regulamentar a saúde mental, desativar hospitais psiquiátricos, incluindo o Colônia, e reestruturar sistema psiquiátrico.

Acima e, à direita R. S. Coelho em foto de 1970 e abaixo em foto mais recente. 




O leitor se vê diante de muitas informações de épocas passadas, contudo refletir sobre o Genocídio do Colônia de Barbacena, que aconteceu por décadas, é uma oportunidade de conhecer o Brasil do século passado nas questões de saúde mental e sua relação com o Poder Público, sua fundação foi no período da República Velha, quando a política era autoritária e centralizadora, portanto, muitas pessoas foram mandadas para o Colônia, porque foram subjugadas por famílias muito ricas, oligarcas, juízes, advogados, entre outras pessoas "com poder político". As mortes sistemáticas e com requintes de crueldade foram expostas por jornalistas e médicos levando ao fechamento, porém nunca houve punições. Daniela Arbex escreveu um grande marco do jornalismo investigativo, entrevistas com vítimas e várias fontes, relatando perspectivas, abordagem nua e crua dos fatos, contextualizando a época de cada fato apresentado, mais um grande marco é a discussão sobre saúde mental e a incompetência das instituições de saúde em uma época que a sociedade brasileira clamava e precisava de transformações.

País de origem: Brasil 

Nome: Holocausto Brasileiro 

Autora: Daniela Arbex 

Editora: Intrínseca 

Ano de publicação: 2013

Número de páginas: 277


sábado, 16 de março de 2024

CRÍTICA| O CRIME DO PADRE AMARO, DE EÇA DE QUEIRÓS

Crítica e questionamento sobre a Igreja

Por Victor Hugo Sigoli de Campos

Data: 08/03/2024






O livro é de 1875, e foi escrito pelo português Eça de Queirós com base nos princípios do realismo-naturalismo – um movimento artístico cuja ideia é a de que o comportamento do ser humano é moldado pelo meio onde nasce ou em que é criado. Amaro Vieira vai ao distrito de Leiria nas proximidades de Lisboa substituir o pároco recém - falecido José Miguéis, na Igreja da Santa Sé, ele fica hospedado na casa de Augusta Caminha uma assídua devota e se apaixona por sua filha, Amélia.          

Amaro presencia seu mestre, o cônego João Dias tendo relações sexuais com Caminha e entende que pode fazer o mesmo com Amélia, e vai coagindo-a em todos os momentos quando ficam sozinhos, e desperta os ciúmes de João Eduardo, o noivo da moça, e entra em conflito com o rapaz. A história critica a religião, também é interessante observar que a narrativa aborda aspectos psicológicos dos personagens, principalmente, a temática de opressão da libido imposta pela doutrina.  

João Eduardo conta ao redator Agostinho do jornal A Voz do Distrito sobre a má conduta clerical em Leiria, e o amigo publica um artigo relatando a imoralidade e corrupção religiosa de “alguns padres” da cidade. A publicação assusta Amaro, João Dias, entre outros confrades, a opinião pública sobre a igreja é impactada, e suas reputações ficam ameaçadas.        

Leitura de trecho da página 75: “Amélia todo o dia pensou naquela história. De noite veio-lhe uma grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade franciscano, na sombra da do órgão da Sé de Évora. Via os seus olhos profundos, reluzirem numa face encovada: e, longe, a freira pálida, nos seus hábitos brancos encostada às grades negras do mosteiro, sacudida pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades caminhava para o coro; ele ia no fim de todos curvado, com o capuz sobre o rosto, arrastando as sandálias, enquanto um grande sino no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Então o sonho mudava; era um vasto céu negro; onde duas almas enlaçadas e amantes, com hábitos de convento e um ruído inefável de beijos insaciáveis, giravam, levadas por um vento místico; mas desvaneciam-se como névoas, e na vasta escuridão ela via aparecer um grande coração em carne viva todo trespassado de espadas – e as gotas de sangue que caíam dele enchiam o céu de uma chuva escarlate”. O trecho é um sonho de Amélia e revela um aspecto psicológico, o desejo sexual pelo padre, pois, está em um ambiente religioso, e exposta ao seu assédio.

A marquesa de Alegros foi a preceptora de Amaro, e deu a ele educação religiosa como forma de pagamento pelo trabalho do seu pai na sua fazenda, e introduziu-o na vida teísta. Na infância, a condessa viu o comportamento dele como muito libidinoso, então desde cedo o padre foi ensinado a suprimir o desejo sexual, assim como, Amélia filha de uma mulher muito devota, e instruída por ela a conservar a virgindade para se casar “pura”. O dogma impede a natureza sexual de despontar, obstruindo o autoconhecimento, gerando consequências na vida dos personagens.  

O padre Amaro sabe que se apaixonar está errado, no entanto, ele segue com seus desejos, em cada interação com a jovem cristã, ele a seduz olhando, tocando, falando, até corromper os celibatos de ambos. Amélia entende que a relação com seu preceptor é problemática, mas está exposta a ele, e se sente impedida de falar a mãe sobre os abusos do pároco, por medo de punições. Os amantes permanecem se encontrando por vários meses, enquanto a obsessão e manipulação de Amaro aumentam, e Amélia fica oprimida, isolada e incapaz de reagir. 

Eça de Queirós escreveu um livro reflexivo sobre a Igreja cujo público são os fiéis, desenvolve a relação deles com os padres, caracterizados como falsos, controladores, controversos, no século XIX quando Portugal ainda era um país extremamente católico. Naturalmente, o livro caiu como uma bomba sobre a sociedade sendo rechaçado pela Igreja Católica, pois seu enredo é irônico e satírico, em alguns momentos repudiamos os eclesiásticos e nos outros rimos de suas peripécias, eles pregam ideais, mas descumprem, manipulam os devotos para benefício próprio, distorcem os conceitos de fé e usam a religião para alcançar o poder. Existem clericais que dão paz, alento, perdão, aos seus seguidores, e Queirós reconhece isso, porém, a sua ideia é desconstruir uma das instituições mais simbólicas do ocidente, postulante de valores e costumes, enfatizando desde a educação recebida pelos religiosos, e chegando a ponto de deturparem a doutrina, assim sendo, Amaro um padre que está conflito consigo mesmo e pervertendo a fé.        


Ficha técnica do livro


País de origem: Portugal


Nome: O Crime do Padre Amaro   


Autor: Eça de Queirós


Editora original: -


Ano da publicação original: 1875


Editora no Brasil: Círculo do Livro


Tradução: -


Ano de publicação: -


Páginas: 490



sábado, 29 de julho de 2023

CRÍTICA| A MALA DE HANA: UMA HISTÓRIA REAL, DE KAREN LEVINE

   Uma mensagem de tolerância 

Por Victor Hugo Sigoli de Campos

Data: 20/06/2023





“A Mala de Hana” é um livro publicado em 2000 pela jornalista e escritora Karen Levine sobre uma menina vítima do nazismo, após ler um artigo do jornal Canadian Jewish News ela foi em busca da tradutora e professora Fumiko Ishioka para conhecer esta história. Em 1998, Fumiko coordenava o Centro do Holocausto de Tóquio, e queria que as crianças soubessem mais sobre o nazismo, então, fez contato com muitos centros históricos ao redor do mundo, e um dia recebeu um pacote contendo uma mala enviada pelo museu de Auschwitz, no material estava escrito - Hana Brady, 16 de maio de 1931, e waisekind, órfão em alemão - e deu início às pesquisas e buscas sobre Hana.  


Trecho da página 5: Nove Mesto, Tchecoslováquia; década de 1930: Nas montanhas ondulantes no meio do território da antiga Tchecoslováquia, numa província chamada Morávia, ficava a cidade de Nove Mesto. Não era grande, mas era famosa. Especialmente no inverno, quando ficava muito agitada. Pessoas de todos os cantos do país vinham esquiar. Havia corridas; havia trilhas a serem exploradas e lagos congelados. No verão, as pessoas nadavam, pescavam, passeavam de barco e acampavam.  

         Nove Mesto era o lar de quatro mil pessoas. No passado, a cidade também era conhecida pela fabricação de vidro. No entanto, nos anos 1930 as pessoas trabalhavam nas florestas e em pequenas oficinas que fabricavam esquis. Na rua principal havia um prédio imponente, de dois andares. Até o sótão tinha dois andares. No porão, uma passagem secreta levava a uma igreja na praça principal. Antigamente, quando a cidade era cercada, essa passagem era usada pelos soldados para estocar comida e suprimentos para a população de Nove Mesto 

         No andar térreo desse grande prédio ficava a maior loja da cidade. Ali, podia-se comprar quase tudo: botões, geleia, lamparinas a óleo, apetrechos para jardinagem, sinos de Natal, pedras para afiar facas, canetas e guloseimas. No segundo andar, vivia a família Brady: o pai Karel, a mãe Marketa, Hana e seu irmão mais velho George”.  

 

Duas linhas do tempo. Dois países. Duas histórias.


Trecho da página 65: Terezin; julho de 2000: Fumiko não podia acreditar. Estava muito chateada consigo mesma e com sua falta de sorte. Tinha chegado até ali e todos que podiam ajudá-la estavam de folga. “Como fui escolher justo hoje para visitar o Museu de Terezin? Como pude ser tão estúpida?”, pensou “O que vou fazer agora?”                                                                                                

Enquanto o sol esquentava-lhe o corpo, uma lágrima de frustração rolou pelo seu rosto. Decidiu voltar ao museu e recompor-se. Talvez conseguisse pensar num plano alternativo 

Quando se sentou num banco frente à recepção, ouviu um barulho. Parecia vir de um dos escritórios no final do corredor. Ali, no último escritório à direita, encontrou uma mulher com óculos no nariz, examinando um bloco de papéis.  

Assustada, a mulher quase caiu da cadeira quando viu Fumiko 

  • Quem é você? - perguntou – O que você está fazendo aqui? O museu está fechado.  

  • Meu nome é Fumiko Ishioka – respondeu. - Eu vim lá do Japão para encontrar informações sobre uma garotinha que viveu aqui Theresienstadt. Temos a mala dela em nosso museu em Tóquio.  

  • Volte outro dia – respondeu a mulher, educadamente – e alguém irá ajudá-la  

  • Eu não tenho outro dia - exclamou Fumiko. - Meu voo para o Japão sai amanhã de manhã. Por favor! - implorou – Ajude-me a encontrar Hana Brady 

A mulher tirou os óculos. Encarou a jovem japonesa e percebeu como ela estava ansiosa e determinada. A mulher tcheca suspirou.  

  • Tudo bem – disse ela. - Não posso prometer nada, mas vou tentar ajudá-la. Meu nome é Ludmilla”.  

 


Mesmo, sabendo da expansão dos nazistas, a família Brady se recusou a fugir. Conforme, foram perdendo direitos e liberdade, o pai e a mãe escolheram manter os filhos preparados para o pior, entre o outono de 1940 e a primavera de 1941, Marketa foi presa pelos soldados alemães, e pouco tempo depois Karel. Levine apresenta os Brady e a cidade em que moravam ao leitor, expõem fotos que abordam o antissemitismo, moldando o aspecto iconográfico e conferindo um caráter documental à obra


A escritora conta a história alternando entre as duas linhas do tempo, e o leitor a conhece com base nas apurações da professora japonesa. Seguimos o passo a passo de Fumiko, e Karen Levine baseou-se em suas descobertas para escrever o livro, cujo mote surge da conexão - passado e presente - com ideias em épocas diferentes que se complementam, e os jovens alunos japoneses se entristecem e se solidarizam com o sofrimento de Hana, George, Karel e Marketa. Uma reflexão sobre uma das maiores tragédias sofridas pela humanidade pelo olhar pueril e profundo das crianças.








Hana e George. 





Fumiko ensinando as crianças do Centro sobre o Holocausto.




Ficha técnica do livro


País de origem: Canadá


Nome: A Mala de Hana: Uma História Real   


Autor: Karen Levine


Editora original: Second Story Press


Ano da publicação original: 2002


Editora no Brasil: Melhoramentos


Tradução: Renata Siqueira Tufano


Ano de publicação: 2014


Páginas: 112