Translate

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

CRÍTICA | AUTO DA BARCA DO INFERNO, DE GIL VICENTE

 Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 03/10/2021



 

Auto da Barca do Inferno é um livro escrito pelo dramaturgo português Gil Vicente em 1517, durante o Humanismo (Renascimento), movimento que princípio um o Antropocentrismo, a racionalidade, e valorização do corpo humano e das emoções. O livro insere personagens de diferentes classes sociais, clero, nobreza e povo, em um rio imaginário onde compreendem se devem entrar no Paraíso ou no Inferno, com o Anjo e o Diabo exercendo o papel de juízes na história.

Os personagens julgados são o Fidalgo, Onzeneiro, Sapateiro, Parvo, Frade, Alcoviteira, Corregedor, Procurador, Judeu, Enforcado, e Os Quatro Cavaleiros,  todos querem entrar na Barca do Anjo, ou seja, ir para o Paraíso. Todos os personagens são julgados pelo Anjo e o Diabo, conforme, as atitudes as ações dos personagens praticaram em vida, por exemplo, o Fidalgo além de usar um empregado para carregá-lo nas costas, demonstra ser prepotente e vaidoso, e mesmo assim, tenta entrar na barca do Anjo que diz: “Não se embarca a tirania neste batel divinal”, conformando-se em entrar na Barca do Diabo, sente que é preciso reconhecer as transgressões que cometeu, e é condenado por sua soberba e vaidade.

Gil Vicente estruturou sua narrativa com diálogos poéticos e elementos metafóricos, rio, barcas, porto, Anjo, Diabo, que representam conceitos. A palavra “Auto”, é uma referência ao teatro medieval, período que influenciou a tradição cultural e literária que inspiraram as ideias do autor, e também é referente aos julgamentos que os personagens estão enfrentando, ao assumirem para o Anjo e o Diabo os percalços que praticaram durante a vida, para depois serem punidos.

É perceptível que para Gil Vicente não bastava assumir ser cristão, também era necessário praticar os valores cristãos, bondade, honestidade, solidariedade, ser fiel ao que acredita. Os Quatro Cavaleiros entraram na embarcação do Anjo, porque lutaram em nome do Cristianismo, sendo assim, considerados os únicos personagens puros. Auto da Barca do Inferno demonstra que a escolha de morrer defendendo a fé católica  prevalece sobre os valores individuais, o objetivo do autor era corrigir à sociedade levando sátira e moral originadas no período medieval.         


Ficha Técnica

Nome: Auto da Barca do Inferno

Autor: Gil Vicente

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 112



Renascimento - Artes Enem | Educa Mais Brasil             

Resumo e análise completa do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente - Cultura Genial                                                               

                                  

                              


       


sábado, 25 de setembro de 2021

CRÍTICA | MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, DE MACHADO DE ASSIS

 

Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 22/09/2021 

 



O escritor Machado de Assis publicou em 1881 o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra que retrata a elite da sociedade do Rio de Janeiro no século XIX. O protagonista é o defunto Brás Cubas que conta ao leitor à sua biografia de forma fragmentada, durante o tempo que relembra fatos e momentos da sua vida, os personagens vão e voltam na narrativa.

Brás Cubas compartilha sua relação com seus familiares, seus amores e sua vida como político, concentrando-se em situações que despertam tristezas e conflitos. Sua mãe era bonita, piedosa e frágil, o pai era muito protetor e condescendente com o filho que era astuto, indiscreto, travesso. O tio cônego de Brás criticava a falta de correção do seu sobrinho.

Aos dezessete anos Brás vai para Portugal estudar Direito na Universidade de Coimbra, e a vontade do seu pai era de que se tornasse Deputado assim que retornasse ao Brasil. Entre seus relacionamentos amorosos, namorou com Eugênia, a filha de uma amiga pobre da sua família, mas descartou-a porque era coxa, posteriormente o seu pai tentou arranjar um casamento com Virgília, filha de um político, o Conselheiro Dutra. Virgília se casa com Lobo Neves, porém, trai o marido com Brás Cubas.

A narrativa do livro é fluida e, está de acordo com o vocabulário da época, com muita nuances para o leitor refletir, o narrador contraditório, aspectos psicológicos, relação entre causa e consequência por exemplo, na infância Brás foi abastado e protegido tornando-se um adulto hipócrita. O protagonista conta a sua história de forma irônica, fala diretamente com o leitor, levando-o a se posicionar sobre as temáticas abordadas, logo, prevalece a compreensão dos leitores. As digressões são características do romance e, relevam a compleição psicológica do protagonista que em determinados momentos interpela um tema e desvia-se perdendo o objetivo. Leiamos um trecho do Capítulo 31- A Borboleta Preta:

                                     “ – No dia seguinte como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra quanto a outra e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me, entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar de escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão nos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu."

                                          "- Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me. Tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado."

                                          "- Também por que diabo não era ela azul? Disse comigo. E esta reflexão, - uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. Amanhã era linda. Veio por ali fora, modesta, negra, espairecendo suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto o que era o homem; movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A idéia subjugou-a,      aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia."

                                         "- Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessa-se com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as providas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.”

O leitor percebe que Brás Cubas observa e disserta sobre os movimentos da borboleta em relação ao retrato do seu pai, mas sai do foco de sua análise. A reação do protagonista em relação a borboleta é racista. Machado de Assis se baseou na elite carioca do seu tempo para construir a história, classe social que em sua maioria era formada por políticos que estudavam em universidades europeias, usufruíram de conhecimento, filosofia, direito, história, literatura clássica, com o objetivo de adquirir poderes, (atente-se para os pensadores citados por Brás, William Shakespeare, Henri Marie-Beyle, Miguel de Cervantes, Blaise Pascal, Virgílio, Laplace entre outros) eram burgueses que se tornavam diplomatas para administrar o Brasil com regime escravocrata. 

A obra representa o Realismo da literatura nacional, os personagens são retratados conforme as pessoas da época, para Machado de Assis Brás é a referência para os homens da classe dominante na sociedade brasileira no século XIX. O personagem nasceu em família abastada e tinha benefícios, privilégios, poderes, mas aos sessenta e quatro anos percebe que não teve feitos significativos, por exemplo, não casou, não teve filhos e, idoso sente que precisa acudir a filosofia para redefinir o propósito da sua existência, pois, mesmo tendo recursos ele não usou para construir vida significativa.

 

Ficha Técnica

Nome: Memórias Póstumas de Brás Cubas

Autor: Machado de Assis

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 256


       

                                               

                                                                        

                                                 






sábado, 4 de setembro de 2021

CRÍTICA | DEATH NOTE: BLACK EDITION VOL. I, DE TSUGUMI OHBA E TAKESHI OBATA


Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 31/08/2021 


Death Note é um mangá publicado em 2003 no Japão, bem sucedido tanto em seu país quanto no mundo. Os mangás são os histórias em quadrinhos japonesas, e Death Note mescla a vida de um adolescente (já indicando o público - alvo do mangá) com elementos da mitologia japonesa. A vida de Light Yagami muda ao encontrar um caderno, o objeto é um elemento sobrenatural que dá poderes ao seu portador.

Light tem dezessete anos e é um dos estudantes mais proeminentes do Japão, mora com sua família na região de Kanto, onde se localiza Tóquio. Ao sair da escola encontra o Death Note (Caderno da Morte) o objeto possui regras transcritas em suas páginas, acerca dos seus métodos de uso, basta escrever o nome de uma pessoa no Death Note, e ela morre logo em seguida. O garoto é motivado pelo desejo de fazer justiça, então, escreve os nomes de criminosos, porque, quer tornar o mundo melhor, a mídia cobre, e a polícia investiga os casos, e começam a chamar o responsável pelas mortes “Kira” (assassino em japonês).

A Polícia japonesa, Interpol, FBI, fazem uma conferência para determinar e planejar ações contra o “Kira”. Surge um enigmático detetive particular conhecido como “L”, é o adversário mais efetivo do protagonista. O roteiro escrito por Tsugumi Ohba tem diálogos objetivos e explicativos, e as informações se repetem durante os diálogos, o autor está justificando as motivações dos personagens ao leitor.

A arte de Takeshi Obata é exótica e insere efetivamente o leitor na cultura e na vida japonesa, a edição de luxo (eu li) é em estilo chiaroscuro, transformando a narrativa em thriller psicológico. Um dos elementos mais interessantes do mangá é o Shinigami Ryuk (Deus da Morte), é o verdadeiro dono do Death Note e é visto somente por Light.  

Ryuk é assustador, alto, tem olhos grandes e petrificados, tem asas e, rosto branco e, representa o desejo e poder de Light tem para matar. A expressão insana e gélida do Deus da Morte demonstra que o seu objetivo é manipular o adolescente. O momento falho é a interação entre Light e a ex-detetive do FBI, Naomi Misora, é gratuita e, precisava ter sido melhor elaborada, pois, o desenrolar dessa parte é convenientemente favorável a Light. 

As sequências de diálogos são longas, por exemplo, as conversas com Ryuk e o assalto ao ônibus planejado por Light, aprofundam temas, por exemplo, o poder, desejo de fazer justiça, os personagens não estão apenas interagindo entre eles, são elementos que simbolizam os conceitos dos autores e estão debatendo com o leitor. Death Note termina no volume seis, então, para a sequência podemos esperar mais tensão do contraponto “Kira” e “L”, e outros Shinigamis entrando no mundo dos humanos.                              
                                           

                                          

Capa da Edição de Luxo                                                                                  


                        


                                                                                                                                                                                                                                                                                        

     Capa da Edição Original


Fonte Google Imagens 


Ficha técnica do livro 

Nome: Death Note - Black Edition Vol. 1

Autor: Tsugumi Ohba, Takeshi Obata 

Editora original: Shueisha Inc. Tokyo 

Data original de publicação: 2003

Editora no Brasil: JBC Editora 

Tradução: Rica Sakata

Data de publicação: 2010

Páginas: 400





 

                                 

sábado, 21 de agosto de 2021

CRÍTICA | O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, DE EMILY BRONTÉ





Escrito por Victor Hugo Sigoli de Campos em 18/08/2021





O Morro dos Ventos Uivantes foi escrito por Emily Bronté em 1846 e, publicado no ano seguinte. Conta uma perturbadora história de amor, entre, o final do século XVIII e o início do século XIX, no interior da Inglaterra, protagonizada por Catherine Earnshaw e seu irmão adotivo Heathcliff Earnshaw. A família Earnshaw é proprietária da residência Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes), nome que descreve a condição climática da região, com muitas neblinas e tempestades, ao lado, está Trushcross Grange, casa da aristocrata família Linton. O livro é referência no gênero literatura de terror ou gótica. 


Leiamos um trecho do capítulo 1: Lockwood narra o momento que conhece Heathcliff.
                            “Estou chegando de visitar o meu proprietário – o único vizinho que me poderá causar desassossegos. Na verdade, esta região é maravilhosa! Acreditar que, em toda a Inglaterra, não encontraria lugar tão distante da agitação mundana. Um paraíso para eremitas. E o sr. Heathcliff e eu formamos um perfeito par de vasos para partilhar fraternalmente este deserto. Que homem extraordinário! Foi enorme a simpatia que senti por ele quando, ao parar o animal, surpreendi seus olhos negros como se ocultando, desconfiados, sob as sobrancelhas, e seus dedos mergulhando ainda mais profundamente nos bolsos de seu colete, ao ouvir o nome com me apresentei.”
O senhor Lockwood é o novo inquilino de Heathcliff que é dono de Trushcross Grange, chegando em sua casa conhece-o, e Catherine Heathcliff (sua nora), Hareton Earnhshaw (seu  sobrinho), Zilá (empregada), e Joseph (empregado). No entanto, os moradores não se gostam, e preterem Heathcliff que impõe sua autoridade com brutalidade e, causando desavenças. Lockwood ao perceber a agressividade que predomina na família, afasta-se e, vai se hospedar na propriedade vizinha, onde conhece Helena Dean (Nelly), que narra a história dos antecessores de Heathcliff.

A família Earnshaw é formada por Hindley Earnshaw, sua esposa e, seus dois filhos, Hindley e Catherine. Um dia o senhor Earnshaw viaja para Liverpool e, ao retornar para a casa traz presentes para os filhos e, também, uma criança que aparentemente não é de origem inglesa e, ele apresenta como Heathcliff. A família recebe mal o seu novo membro, a senhora Earnshaw exaltada ameaça expulsar o garoto de casa, Catherine faz caretas e cospe em Heathcliff, retratando de forma verossímil o racismo e a xenofobia da sociedade inglesa dos séculos, XVIII e XIX.              
Heathcliff cresce em meio às discriminações da família, e é com o jovem Hindley com quem tem muitos conflitos, que vão desde a ofensas a agressões, porque, o patriarca dos Earnshaw insiste em incluir o garoto na sua família. Quando a esposa do senhor Earnshaw morre, às desavenças na família aumentam, e Hindley sai de casa. Na adolescência, Heathcliff apaixona-se por Catherine, mas a moça o rejeita, pois, não é inglês e rico.

Excluído e ressentido, Heathcliff foge de casa à noite, durante uma tempestade e, retorna para Wuthering Heights após vários meses, com muito dinheiro e com o objetivo de reconquistar Catherine que está casada com Edgar Linton o filho do magistrado. Catherine e Heathcliff se reaproximam e, a moça trai o marido – lembrando que no Romantismo, a forte conexão do casal é a consumação do relacionamento – enche-se de ciúme pela relação de Heathcliff e Isabel Linton, à sua cunhada, e trama a separação dos dois, pois, almeja sempre controlar Heathcliff. A relação entre Heathcliff e Isabel é adversa, porque, os dois são opostos, ela delicada e paparicada, ele bruto e opressor, torna-se em uma ameaça à Isabel.

Leiamos um trecho do capítulo 6: Heathcliff conta a Nelly a situação que ele e Catherine se envolveram na propriedade da família Linton.
                                 “ – Eu estava contando que nós ríamos. Os Linton nos ouviram e se lançaram como flechas para a porta. Houve um silêncio e depois um grito: “Mamãe! Papai! Mamãe, venha até aqui! Ó papai!”. Na verdade, eles gritaram algumas coisas mais ou menos assim. Fizemos um barulho dos diabos para aterrorizá-los ainda mais, e depois abandonamos o rebordo da janela, porque alguém estava tirando as trancas, e achamos melhor fugir. Eu puxava Catherine pela mão, apressando-a, quando de repente ela caiu. “Fuja, Heathcliff, fuja!” O diabo do cão tinha agarrado o tornozelo dela, Nelly. Ouvi o terrível rosnado dele. Ela não deu um grito...Não! Teria vergonha de fazê-lo, mesmo que estivesse espetada nos chifres de uma vaca raivosa. Mas eu gritei! Berrei maldições capazes de aniquilar todos os demônios da cristandade. Agarrei uma pedra, enfiei-a na boca do cão e tentei, com todas minhas forças, empurrá-la para dentro da garganta dele. O idiota de um criado apareceu com uma lanterna, gritando: “Aguenta, Skulker, aguenta !” Mas mudou de tom ao ver quem era a presa de Skulker. Apertou-lhe a garganta. A enorme língua arroxeada do animal pendia da boca um meio pé, e seus beiços caídos deixavam correr uma baba sanguinolenta. O homem ergueu Catherine. Ela se sentia mal, não de medo, tenho certeza, mas de dor. Levou-a para dentro. Acompenhei-o xingando-o e ameaçando-o. “O que foi que ele pegou”, perguntou Linton, lá da entrada. “Skulker pegou uma mocinha, meu senhor !” respondeu o criado “e há também aqui um rapaz”, acrescentou, mostrando me o punho, “ que me parece um espião! Com certeza os ladrões queriam fazê-los passar pelas janelas a fim de abrirem as portas para o bando, depois que todos estivessem dormindo, e pudessem nos matar com facilidade. Cale a boca, ladrão indecente! Você vai parar na forca por causa disso. Sr Linton, não largue sua espingarda.” “Não, não, Robert”, disse o velho imbecil. “Os patifes souberam que ontem foi de eu receber pagamentos. Pensaram que poderiam se dar bem. Entre. Tenho uma recepção preparada para eles. Ali, John, prenda a corrente. Jenny, dê um pouco de água a Skulker. Desafiar um magistrado na sua fortaleza...É apenas um menino... no entanto a perversidade está estampada no rosto dele.”          
Os diálogos são pofundos, a autora descreve com detalhes às ações e os locais onde acontece a história, o leitor se sente na mansão Earnshaw, na mansão Linton, ou nas florestas de Wuthering Heights. Heathcliff e Catherine, mesmo quando estão separados não perdem a atração doentia que sentem um pelo outro, predominando sempre o desejo. O amor de Heatcliff e Catherine seria metafísico? Ou seria consequência de manipulação psicológica?

É perceptível que Catherine influencia Heathcliff e, conforme seus desejos, rejeitou-o por ser pobre, mas tornou-o um homem amado. Heathcliff é um personagem misterioso, tirado das ruas de Liverpool pelo senhor Hindley Earnshaw e, aparentemente, de origem africana, asiática, ou americana, possivelmente filho de escravos, ou será filho bastardo de Earnshaw? Será ele bruto ou vingativo?

A obra se passa ao longo de trinta anos e, apresenta os personagens em suas infâncias até tornarem-se adultos, nos envolvemos com suas virtudes e suas imperfeições. As insinuações sobrenaturais em relação a Heathcliff são envolventes, e levam o leitor a questionar a personalidade do protagonista, tornando o livro representante da literatura de terror.

Se Bronté queria que o amor na obra fosse lembrado, como metafísico, então, Catherine e Heathcliff são almas gêmeas? Será que para a autora amar e manipular são intrínsecos? O fato dos personagens serem ambíguos demonstram que eles fazem o bem e o mal e, enfrentam as consequências das suas decisões, tornando-se vítimas das suas próprias paixões. Ainda que, o livro possa dividir opiniões sobre ser uma história realista ou não, é perceptível que autora mesclou as discriminações contra os estrangeiros com elementos sobrenaturais e, ambientada na sociedade inglesa que os compreendia como misteriosos e brutos.   

  

Ficha Técnica

Nome: O Morro dos Ventos Uivantes

Autor: Emily Bronté

Editora: Nova Cultural 

Número de páginas: 286


 

                                     

      Romantismo: características, fases, autores, obras, resumo (uol.com.br) 

       

    'O Morro dos Ventos Uivantes': quando a literatura é do tamanho da vida - Revista Galileu | Cultura (globo.com)







sábado, 7 de agosto de 2021

CRÍTICA | AMOR DE PERDIÇÃO, DE CAMILO CASTELO BRANCO

Escrito por Victor Hugo Sigoli de Campos em 03/08/2021




O escritor português Camilo Castelo Branco publicou em 1862, o livro Amor de Perdição. O autor  aborda em primeira pessoa, a trágica história de um amor proibido, que ele conheceu através de documentos e por histórias que ouviu falar. Teresa e Simão são vizinhos, adolescentes e muito apaixonados um pelo outro, suas famílias inimigas, ela da família Albuquerque, e ele da família Botelho.
 
O corregedor Domingos Botelho é casado com Rita Preciosa e, é pai de cinco filhos, entre eles, Simão, Manuel (pai do autor do livro), Rita. Simão Botelho é um jovem explosivo e indolente, depois de defender um criado da família de espancamento, o pai o envia para a Universidade de Coimbra, para que os estudos redimissem o seu temperamento violento, mas o rapaz é preso por arruaças e, ao sair da cadeia retorna a sua cidade natal, Viseu, e conhece Teresa de Albuquerque. Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa, é contra o romance de Simão e Teresa e, ordena que ela se afaste do rapaz e a incentiva a casar com o seu primo Baltasar Coutinho, pois tem o objetivo de aumentar o patrimônio financeiro da sua família.


Teresa contraria as ordens do pai e se corresponde com Simão por carta, então Baltasar decide matar o seu rival. O protagonista é ferido durante o ataque, mas é salvo por João da Cruz amigo da sua família, e Mariana filha de João, cura o ferimento de Simão e se apaixona pelo rapaz. A obra tem estrutura novelesca, o herói Simão Botelho é apaixonado e corajoso, portador de ideais revolucionários, é capaz de fazer tudo pela sua amada, inclusive matar ou até mesmo morrer... Teresa é a heroína romântica, apaixonada e obstinada e, se opõe ordens de seu pai e também as tradições da sociedade da época.



O vilão Baltasar Coutinho, que deseja casar com Teresa, simboliza os burgueses medíocres que não sentiam “amor verdadeiro”  e casavam por interesses. João e Mariana são camponeses, e ajudam Simão curando o seu ferimento e dando-lhe dinheiro e mantendo-o escondido em sua casa. Mariana escolhe ajudar Simão e Teresa a ficarem juntos, por causa do amor que sente pelo rapaz, porém, a personagem silencia o seu sofrimento, por causa das suas decisões.


A narrativa do livro “Amor de Perdição” é linear, privilegiando o leitor que acompanha as ações dos personagens nos momentos em que elas acontecem, são apresentadas suas paixões, desavenças, delírios, conflitos, que enfatizam o desenvolvimento dos personagens e constituem seu mundo romântico. Releva fatos praticados pela aristocracia portuguesa na época, por exemplo, casamento entre primos para elevar o poder das famílias. Em meio à idealização que desponta no romance, vemos que os personagens agem pelas emoções e opondo-se as tradições da sociedade. 



                 Ficha Técnica

                Nome: Amor de Perdição

                Autor: Camilo Castelo Branco

                Editora: Click Editora/ O Estado de São Paulo

                Número de páginas: 160




                                       

sábado, 24 de julho de 2021

CRÍTICA HQ | BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS, DE FRANK MILER, KLAUS JANSON E LYNN VARLEY



Escrito por Victor Hugo Sigoli de Campos em 23/07/2021 


 
   

A trilogia Batman O Cavaleiro das Trevas foi publicada em 1986 pela editora DC Comics. Tendo o primeiro volume roteirizado por Frank Miller e desenhado por Klaus Janson, e a sequência, lançada em 2001 também é escrita por Miller e desenhada por Lynn Varley. 

A saga passa-se em contexto distópico, no qual, o Batman (Bruce Wayne) está aposentado e, amargurando traumas do passado, como a morte de seus pais. O Super-Homem é o único super-herói considerado “legítimo” pelo governo dos Estados Unidos, fazendo com que seus ex-companheiros de Liga da Justiça, sejam proibidos de atuarem contra o crime, levando o Cavaleiro das Trevas a ter muitos confrontos com a polícia de Gotham. O desespero da população pelo fim do mundo e a violência imperando numa cidade caótica, retratam o período e o clima da Guerra Fria, o mundo à espera de heróis para ser salvo, o cerne da histórias de super-heróis.

Na ausência do Homem-Morcego a criminalidade atingiu seu auge com a Gangue Mutante, que o Vigilante deve enfrentar para salvar a cidade, além, de se vingar de seus inimigos, Coringa e Harvey Duas-Caras. À medida que a trama avança, Batman, e Carrie Kelley “a nova Robin”, combatem o crime e derrotam a Gangue Mutante. Vamos falar sobre a arte. Janson apresenta e caracteriza todos os elementos da história, com traços detalhistas que expõem ao leitor as características psicológicas de cada personagem, e também à ação, ilustra sequências de ações noturnas empolgantes.  




 

                                                                                                                                                                         Google Imagens







Arquivo Pessoal




                                                                                                        Arquivo Pessoal 
Arquivo Pessoal 

                                                                              
Google Imagens 



Ao confrontar seus velhos inimigos, Duas-Caras e Coringa, roteiro e ilustração unem-se de forma eficaz, ao enfrentar o primeiro, o roteirista e o desenhista, expõem similaridade entre os dois personagens. Contra o segundo, o leitor disserta sobre o novo objetivo do herói, à justiça ou à vingança?
O Cavaleiro das Trevas 2 passa-se tanto em Gotham City, quanto em Metrópolis, aborda mais o envolvimento do Super-Homem com a história. O arco do Homem de Aço é abordado com trechos de telejornais que possuem várias combinações de cores, por exemplo, preto e verde, azul e preto, rosa e laranja, considerando o contexto totalitário da obra, os telejornais coloridos são um simulacro que encobre a realidade que o país enfrenta. As características matizadas da sequência contrasta com o aspecto soturno de O Cavaleiro das Trevas.

Janson desenvolve o visual de quadrinho a quadrinho, apresentando a ação e o local onde ela acontece, mas na sequência não é possível entender onde transcorre a ação, percebemos também a desproporcionalidade nos traços, por exemplo, nos corpos de alienígenas. O roteiro é focado no desenvolvimento dos protagonistas, e Miller mira suas críticas aos jornalistas, políticos e psicólogos. A caricatura de políticos e o presidente dos Estados Unidos ser um holograma, demonstram o objetivo de escarnecer os governantes, que não seriam capazes de salvarem suas nações se os vilões das histórias em quadrinhos existissem, assim, inserindo os leitores no contexto da obra.       




Arquivo Pessoal 

Sistematicamente, critica os jornalistas, porque, são sensacionalistas e desinformam de forma expoente os telespectadores, e agravam o caos social. O roteirista escarnece o psiquiatra Fredric Wertham, autor do livro, Sedução do Inocente, que foi publicado em 1954, e alertou os leitores sobre a tese das histórias em quadrinhos serem um fator para delinquência juvenil, inserindo um psiquiatra que se apresenta em telejornais dirigindo ataques ao Batman e a polícia de Gotham City, e defendendo Coringa e a Gangue Mutante.

Batman e Superman, ambos querem salvar a humanidade e não poupam esforços para cumprirem os seus objetivos, mas um precisa do outro para enxergar a verdade, podemos deduzir que para o Batman a humanidade deve ser dominada, mas o Superman deve liderá-la. Batman O Cavaleiro das Trevas é baseado no universo do personagem, considera seu surgimento, seus aliados, e seus inimigos, formam a base do roteiro, a Guerra Fria, crítica política e crítica aos formadores de opinião, demonstram que a narrativa possui o objetivo de situar os leitores no período de tensão entre Estados Unidos e União Soviética. A essência dos super-heróis sempre foi a justiça, verdade e coragem, o roteiro releva todas as características dos personagens, e demonstra que o ideal sempre foi levar entretenimento e princípios às crianças e adolescentes.


Arquivo Pessoal

 Saiba quem foi Fredric Wertham: Clique Aqui


Ficha Técnica

Nome: Batman - O Cavaleiro das Trevas

Autor: Frank Miller, Klaus Janson, Lynn Varley

Editora: DC Comics/ Panini

Número de páginas: 512




                          

   

 

 




sábado, 10 de julho de 2021

CRÍTICA | ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, DE JOSÉ SARAMAGO


Escrito em 08/07/2021 por Victor Hugo Sigoli de Campos



O livro “Ensaio sobre a cegueira” foi escrito por José Saramago e, publicado em 1995, somos apresentados a personagens que estão em seu dia a dia normal, e simplesmente, tornam-se cegos. Os protagonistas da obra são, O Oftalmologista, A Esposa do Oftalmologista, O Primeiro Cego, A Esposa do Primeiro Cego, O Velho da Venda Preta, O Garotinho Estrábico e A Rapariga de Óculos Escuros, eles se conhecem no consultório do Oftalmologista e formam um grupo que segue junto até o fim da obra. O governo e o exército acreditam que a cegueira é uma doença, e colocam à força todos os cidadãos que estão acometidos pela cegueira em um hospital psiquiátrico.

Os personagens que há pouco viam, agora, estão cegos, a cegueira os envolve na “brancura”, “no mar de leite”, os cegos querem enxergar, mas não conseguem e não podem, não veem quem está ao lado, não veem o que está acontecendo, porque estão cegos. O Oftalmologista, A Esposa do Oftalmologista, O Primeiro Cego, A Esposa do Primeiro Cego, A Rapariga dos Óculos Escuros, O Menininho Estrábico e O Velho da Venda Preta, enfrentam medo e sofrimento que os atingem, durante o cegueira e confinamento.   

O exército entrega alimentos para todos, mas surgem as facções de cegos que controlam água e comida, e dividem com os outros cegos, se eles aceitarem às suas explorações, ademais, as facções causam estupros e assassinatos dentro do manicômio. A situação dos protagonistas passa a ser de luta pela sobrevivência, então, a crítica que o autor faz é, quando as pessoas estão cegas elas não veem a quem elas fazem mal e nem quem lhes faz mal. 

A leitura de “Ensaio sobre a cegueira” é pesada, pois a sua narrativa é melancólica e profunda, e o objetivo do autor é levar o leitor a refletir e a sentir esse peso que ela possui. A cegueira se espalha pela cidade e a leva ao colapso, ainda que o autor não enuncie o local onde ela acontece, o leitor compreende que a narrativa é válida para qualquer país.

Os personagens não têm nome, o autor intitula-os de acordo com as suas características, que enfatizam as tragédias sofridas por cada um. Compreendi o banho na chuva que A Rapariga de Óculos Escuros, A Mulher do Oftalmologista e A Mulher do Primeiro Cego tomam, é a única demonstração de alívio em todo o texto, porque, descarregam toda sujeira e sofrimento que estão empesteando-as.    

Como diz o trecho da página 306:  “Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras."

O livro envolve o leitor, que quanto mais o lê, mais é imerso pela “brancura”, pelo “mar de leite”, assim como, os personagens do livro. Saramago nos questiona sobre o que é ver, a narrativa não explica como surgiu a cegueira, mas os personagens sabem que ela é real e, precisam olhar para si mesmos e pensar que talvez, a resposta para cegueira seja, refletirem em relação as suas próprias vidas.     

Ficha Técnica

Nome: Ensaio Sobre a Cegueira

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras 

Número de páginas: 310