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sábado, 25 de junho de 2022

CRÍTICA | O DESPERTAR: PARTE UM, DE SCOTT SNYDER, SEAN MURPHY E MATT HOLLINGSWORTH

                               Horror e mistérios no fundo do mar                                        

                                        Escrita em 08/06/2022 por Victor Hugo Sigoli de Campos


história em quadrinhos da Vertigo/ DC Comics abarca meio ambiente e destruição da humanidade, o roteirista Scott Snyder insere elementos de horror na temática de ficção científica. A doutora Lee Archer estuda cetologia – estudo dos mamíferos marinhos – é convidada por Astor Cruz pesquisador-chefe da Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera para investigar sons misteriosos detectados na encosta sul do Alasca. Cruz promete ajudar Lee recuperar a tutela do filho, e a convence embarcar na missão. 

Ao chegar na base, a protagonista deverá trabalhar em equipe, com Bob Wainright, do mesmo campo de estudo, Dr. Marin professor de folclore e mitologia na Universidade Brown, Leonard Meeker,  engenheiro e arquiteto oceânico, e a capitã Mackelmay. Os pesquisadores descobrem a relação de baleias e golfinhos com o monstro, ademais, análises sobre animais marinhos e o mito sobre sereias desvendam segredos. Em flashbacks, vemos à chegada de “seres estranhos” na Terra, em flashforwards, vemos a humanidade sendo destruída por tsunamis, a história transmite a ideia de ciclo, porém, o argumento é de que as ações humanas estão levando ao fim do mundo.

Os desenhos são de Sean Murphy e focados nos personagens e suas interações com o ambiente, os rostos que por vezes assumem o formato de figuras geométricas, dão a impressão de brutalidade à narrativa, agravando o seu aspecto caricato. Animais, trajes, mar, plataforma submarina, maquinário, possuem designs detalhados, gerando a sensação de verossimilhança.

O artista digital Matt Hollingsworth criou as paletas de cores da hq, o azul está presente nas salas do submarino e na água, suscitando a sensação de frieza e solidão, combinando a cor com os locais fechados, já, a criatura com seus olhos maus e vazios é uma predadora implacável. O enredo se desenvolve de forma abrupta, incorrendo na nulidade do clímax.     

Com diversidade, representatividade e liderança femininos, e questões sobre o futuro do mundo, a história mostra-se muito atual. Os autores casam com dinamismo, ficção científica e terror.    
















Ficha Técnica da HQ 

País de origem: Estados Unidos 

Nome: O Despertar 



             

                                                                           


sábado, 4 de junho de 2022

CRÍTICA | A GUERRA DOS TRONOS: LIVRO 1 - AS CRÔNICAS DE GELO E FOGO, DE GEORGE A. A. MARTIN

Conheça o mundo autêntico, fantástico e conflituoso, criado por George R.R. Martin 

Escrita em 07/05/2022 por Victor Hugo Sigoli de Campos 



A Guerra dos Tronos é a saga literária de ficção fantástica escrita por George R.R. Martin. A história se passa em Westeros, continente onde está localizado o Ocidente, de norte a sul e leste a oeste, é formado por muitas regiões, com características geográficas diversas, com montanhas, florestas e planícies, o norte é dominado pelo inverno, com intensas nevascas e o frio ameaçador, já o sul, tem clima quente, desertos, cidades, e comércios. Há quinze anos aconteceu o Saque de Porto Real, pois o soberano Aerys Targaryen II foi acusado de cometer vários assassinatos, então, Lannisters, Baratheons, e Starks se unem para destituí-lo, começando o Saque a Porto Real, os sobreviventes foram os irmãos Viserys e Daenerys.   

O Rei Robert Baratheon convida seu amigo Eddard para substituir a Mão do Rei, Jon Arryn, falecido recentemente. A frente da comitiva real, é obrigado a trabalhar com os representantes de sua Majestade, Petyr Baelish ou “Mindinho” é o Mestre da Moeda, o idoso meistre Pycelle que é médico, Varys que possui muitos contatos, e Sor Barristan Selmy Chefe da Guarda de Porto Real.


                                                        


Eddard "Ned" é o “Protetor do Norte”, homem honrado, justo e severo, é casado com Catelyn, e pai de cinco filhos, Robb e Jon Snow, têm catorze anos, Sansa onze, Arya nove, Brandon sete, e Rickon três, moram em Winterfell. Em sua dinâmica com os integrantes do conselho, sente-se preso pelos luxos que lhe são oferecidos, nas comidas e bebidas, sendo afastado da esposa e dos filhos. Arrepende-se de ter participado do massacre ao reino quinze anos antes.   

Catelyn lida com seriedade ser esposa e mãe, quando um dos filhos sofre uma tentativa de assassinato parte para Correrio, Porto Real e Vale de Arryn para investigar quem ordenou o ato e fazer justiça, inclusive, afrontando poderosos e criando inimigos. A senhora Stark trata Jon com grosseria e tenta mantê-lo afastado dos irmãos, pois, é bastardo, evitando discutir a infidelidade do marido.

A família taciturna e agressiva, tal como o lobo, o seu lema é “O Inverno Está Vindo”, referindo-se a chegada de períodos duros, também motivador, já que o animal é habituado aos climas frios. As casas vassalas que servem ao Stark são, Mormont, Karstark, Umber, Hornwood, Flint, Cerwyn, Bolton, Manderly, Reed, Glover e Tallhart. 

Leitura de trecho da página 35: Ned e o Rei, estão nas criptas dos Reis do Norte, conversam sobre passado e presente.  

“Seguindo um costume antigo, uma espada de ferro tinha sido colocada sobre o colo de todos os que não tinham sido senhores de Winterfell, a fim de manter os espíritos vingativos em suas criptas. A mais antiga havia muito enferrujara até a inexistência, deixando apenas algumas manchas vermelhas onde o metal tocara a pedra. Ned perguntou a si mesmo se isso significava que os espíritos estavam livres agora para passear pelo castelo. Esperava que não. Os primeiros Senhores de Winterfell tinham sido tão duros como a terra que governavam. Nos séculos anteriores à vinda dos Senhores do Dragão do outro lado do mar, não tinham jurado fidelidade a ninguém, fazendo tratar-se por Reis do Norte.”

“Ned parou, finalmente, e ergueu a lanterna. A cripta continuava à sua frente mergulhando na escuridão, mas para lá daquele ponto as tumbas estavam vazias e por selar; buracos negros à espera de seus mortos à espera dele e de seus filhos. Ned não gostava de pensar naquilo.” Pensando nos seus antepassados Ned reflete em relação ao destino dos filhos: estariam destinados a lutarem e morrerem?

O Rei Robert Baratheon é chamado de “Usurpador”, visualmente é parecido com Thor, luta com um martelo, tem grandes cabelos e barba, é conhecido por sua coragem e força demonstrados nos campos de batalha, entretanto, cedeu aos vícios, bebida, comida e sexo, sua negligência deixou o reino corrompido e endividado. Sua esposa é Cersei Lannister, dominadora e calculista, com sua beleza e modo de falar persuasivo, convence todos a seguirem suas ordens. O seu casamento está decadente, Cersei evita fazer aparições públicas com o marido, e no íntimo o despreza.     



Um leão dourado em campo carmesim e a frase “Ouça – Me Rugir !” é o emblema dos Lannisters, cujo patriarca é Lorde Tywin “O Senhor do Ocidente” mora em Rochedo Casterly, seu primogênito é Jaime conhecido por “Regicida”, e sua filha é a Rainha. É monarca influente e líder militar, ensinou os filhos a sede por domínio, "parece ter o rosto esculpido em pedra" como diz Martin, tem olhar frio e soberano e atitudes imponentes. Tyrion é o filho mais novo, é inteligente e observador, embora, seja anão, se recusa a ser submisso...Conhece Jon Snow em Winterfell, o sentimento de exclusão por suas famílias, gera empatia entre ambos. 



                                                                        

No sul de Westeros, na cidade de Pentos, moram Viserys “O Rei Pedinte” com dezoito anos e Dany com treze. A relação é traumatizante para Daenerys, porque sofre com abusos do irmão, que a vende ao Príncipe Dothraki, Khal Drogo, em troca de apoio para sua desforra contra o “Usurpador”.

Dothrakis são inspirados nos mongóis e nos índios norte-americanos, os “Senhores dos Cavalos” habitam a planície do continente de Essos, são nômades e atacam povoados, levando ouro, alimentos, animais, utensílios para seus enormes grupos, os Khalazares, compostos homens, mulheres, idosos e crianças, são liderados por um Khal, ou rei, é seguido pelos seus parceiros de sangue os Dothrakhqoyi que devem protegê-lo e vingá-lo. A Khaleesi é esposa em seu idioma e deve gerar filhos fortes, sua cultura honra o cavalo venerando o Deus Cavalo, alimentando-se da carne do animal, e acreditando no "Grande Garanhão" que montará o mundo e unirá todos os Khalazares.


                                                            
      


Ao se casar com Drogo, a “Filha da Tormenta” fica assustada e perplexa com seu marido e o seu povo, mas se apaixonam, e ganha um protetor fiel e forte, Jorah Mormont. A princesa é irmã também de Rhaegar, e ambos são filhos de Aerys II “O Rei Louco” com a irmã Rhaella. Descendente dos últimos habitantes da Cidade Franca de Valíria, Aegon “O Dragão” foi o primeiro rei da Antiga Dinastia marcada por incestos e disputas de parentes, em todas as gerações. “Fogo e Sangue” e um dragão vermelho de três cabeças, simbolizando Aegon e suas irmãs, Visenya e Rhaenys, em sua aparência se destacam seus cabelos ouro-prateados ou branco-platinados e olhos cor índigo, lilases ou violeta.

Os núcleos narrativos estão divididos entre o norte (Winterfell, Correrio e Vale de Arryn), Porto Real, e sul (Pentos e o Khalazar). Jon Snow está se tornando Irmão Juramentado da Patrulha da Noite, e Robb o Senhor de Winterfell, liderança ganha diversas faces com Eddard, Robert e Tywin, Bran e Tyrion demonstram superação de traumas, e Catelyn, Cersei e Daenerys usam seu poder em defesa de suas famílias. O instigante roteiro levará o leitor a refletir sobre guerra, política e família, e os personagens são apresentados com base em suas bandeiras compostas por animais e seus princípios, criando personalidades através de seus dilemas e emoções.

Leitura de trecho da página 244. Porto Real é uma cidade com beleza exterior, parecidas com as contos de fadas, mas, internamente guarda segredos obscuros, a filha caçula de Ned, Arya, explora a capital descobrindo-os.    

“Seus dedos roçaram pedras ásperas, sem acabamento, à sua esquerda. Seguiu a parede tocando levemente a superfície, avançando com pequenos passos deslizantes pela escuridão. Todos os átrios levam a algum lado. Onde há uma entrada, há uma saída. O medo golpeia mais profundamente que as espadas. Arya decidiu que não teria medo. Parecia já ter percorrido um longo caminho quando a parede terminou abruptamente e uma aragem de ar frio soprou seu rosto. Cabelos soltos agitaram-se levemente contra sua pele.”

“Vindos de algum lugar, muito abaixo, ouviu ruídos. O raspar de botas, o som distante de vozes. Uma luz vacilante passou pela parede, ligeira, e ela viu que se encontrava em torno de um grande poço negro, um precipício com seis metros de lado a lado, que mergulhava profundamente na terra. Enormes pedras tinham sido enfiadas nas paredes curvas para formar degraus, espiralando para baixo, e mais para baixo, escuras como os degraus do inferno sobre os quais a Velha Ama costumava lhe falar. E algo subia, vindo da escuridão, das entranhas da terra...”

“Arya espreitou por sobre a borda e sentiu a fria aragem negra no rosto. Muito abaixo viu a luz de um único archote, pequeno como a chama de uma vela. Distinguiu dois homens, suas sombras se contorciam contra os lados do poço, altas como gigantes. Conseguia ouvir suas vozes ecoando pela chaminé acima.”

“- ... encontrou um bastardo – disse um deles. – O resto virá em breve. Um dia, dois, uma quinzena...”

“- E quando souber a verdade, o que vai fazer ? – perguntou uma segunda voz no sotaque fluído das Cidades Livres. “

“- Só os deuses sabem – disse a primeira voz. Arya conseguiu ouvir um filamento de fumaça cinzenta que saía do archote, contorcendo-se como uma serpente enquanto subia. – Os idiotas tentaram matar seu filho e, o que é pior, fizeram da tentativa uma farsa. Ele não é homem que ponha de lado algo assim. Pode ter certeza de que o lobo e o leão logo se atirarão à garganta um do outro, quer queiramos ou não.”

Martin apresenta um universo de fantasia, com lobos e ursos gigantes, e dragões, representam a fauna sombria das regiões onde habitam. A realidade está presente na essência dos personagens e em suas experiências de vida, na hierarquia social, os homens se tornando guerreiros na adolescência, e casamentos por interesses políticos, conforme, acontecia na Idade Média. A obra introduz o conflito e suas origens, e a forma que estes elementos influenciarão a guerra de reinos que alcançaram o poder juntos, e vão lutar entre si pelo Trono de Ferro.

                  

  


 


















                                                            HOUSE TALLHART 



Fonte das imagens: Pinterest. 


Ficha técnica 

País de origem: Estados Unidos 

Nome: A Guerra dos Tronos; Livro 1 - As Crônicas de Gelo e Fogo 



                                                            






 

 

 


sábado, 15 de janeiro de 2022

CRÍTICA | DEATH NOTE: BLACK EDITION VOL. III, DE TSUGUMI OHBA E TAKESHI OBATA

 Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos 12/ 01/ 2022 



O terceiro capítulo de Death Note continua a história de Light Yagami, e a caçada ao Kira desenvolvida pela Agência Nacional de Polícia, após L prender o inimigo e a sua namorada, tenta provar que o casal é o primeiro e o segundo Kira, mas não consegue e é obrigado a libertá-los. O surgimento do terceiro assassino que comete crimes usando o caderno implicará que o detetive e seus antagonistas voltem a trabalhar juntos. 

A trama de Tsugumi Ohba segue com diálogos concisos que expandem o assunto, neste capítulo estão no foco da narrativa os diretores do departamento de tecnologia do Banco Yotsuba que usam os poderes do caderno para manipularem mortes que favorecem ao crescimento da empresa. São eles Ooi, Kida, Shimura, Takahashi, Namikawa, Hatori, Higuchi e Mido. O atual portador do caderno é ambicioso, cruel e, estrategista nato, sua grande ambição é se tornar Presidente do Banco, adotando praticas para manipular a polícia, por exemplo, matar políticos usando o caderno, obrigando a Agência Nacional encerrar as investigações contra o serial killer. 

As tensas reuniões entre os oito diretores mostram que um deles está manipulando os demais, e as vítimas executadas são positivas para todos os envolvidos. Os membros da Agência Nacional são obrigados a agirem na ilegalidade, uma escolha de roteiro questionável, pois, torna a trama previsível e o grupo dos conspiradores um elemento descartável.

A arte de Takeshi Obata tem desenhos límpidos e leves, sem uma gama de detalhes. Com a habilidade de cinegrafista, Obata alterna o enfoque a cada quadro, para dar mais ritmo ao enredo. O Shinigami Ryuk não está na história, porque no volume anterior Light arquitetou um plano para se livrar das suspeitas de “L”.     

Na ausência do Shinigami principal, Rem é o elemento sobrenatural mais importante da terceira parte (além do Death Note), a entidade continua sua missão de proteger Misa Amane, para concretizar o seu objetivo entrega o caderno de Light para o novo portador, mesmo que o feito possa levar a punições irreversíveis. A participação de Amane é decisiva para o namorado desenvolver seus planos, já, Mogi e Watari, destacam-se em momentos de ação e espionagem, Matsuda é o alívio cômico e é essencial para as estratégias do grupo investigativo.

O confronto mental entre Yagami e Ryuzaki não acontece nesse volume, fato que enfraquece a dinâmica de rivalidade construída nos capítulos anteriores. Ao decidir que o adolescente deve abdicar do material o roteirista está adicionando uma nova pergunta na relação do jovem com o Deus da Morte, de que Ryuk o possuiu, ou, será que Light tem doenças psicológicas ? Entre acertos e tropeços os autores produziram uma parte interessante e que beneficia as intenções do protagonista.

                                                                                               

Os oito criminosos em suas reuniões (Arquivo Pessoal)



                       

   












Light Yagami e L perseguindo o Novo Kira de helicóptero. (Arquivo Pessoal) 


 


Uma das capas da edição original (Arquivo Pessoal)

  

Sugestão: Crítica do Death Note Vol. II

                                               

Ficha técnica do livro 

País de origem: Japão  

Nome: Death Note - Black Edition Vol. III

Autor: Tsugumi Ohba, Takeshi Obata 

Editora original: Shueisha

Ano original de publicação: 2003

Editora no Brasil: JBC

Tradução: Rica Sakata  

Ano de publicação: 2010

Páginas: 400


                                                 

                                                                   

                                             










sábado, 11 de dezembro de 2021

CRÍTICA | IVANHOÉ, DE WALTER SCOTT

                   O Grande Romance de Cavalaria Inglesa 

                                    

                                  Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 09/12/2021


                                            

Ivanhoé foi escrito no século XIX pelo romancista escocês Walter Scott, o protagonista é o cavaleiro inglês Wilfred de Ivanhoé. O conto tem combates, traições, e conflitos entre muitos povos, elementos essenciais para literatura medieval. A introdução à dinastia Plantagenet, também conhecida por Plantageneta, sucessão de reis que governaram a Inglaterra do ano de 1154 a 1399, oriunda do Condado D’Anjou, na França, começaram seu reinado por meio do casamento da Rainha Inglesa Matilde (filha do rei Henrique I) com Godofredo V, e seu filho Henrique II que foi casado com Leonor da Aquitânia, dando sequência a linhagem da família com sete filhos, Guilherme, Henrique, Ricardo I, Matilde, Godofredo, Leonor, Joana e João.         

Brasão da Dinastia Plantagenet 




 
Rei Godofredo V 




Rainha Matilde 


























Leonor da Aquitânia 





Rei Henrique II




Vamos ler um trecho do capítulo I:

                                                           “Naquela região agradável da alegre Inglaterra que é banhada pelo rio Don, estendia-se, em época remota, uma grande floresta, cobrindo a maior parte das belas colinas e vales que jazem Sheffield e a aprazível localidade de Doncaster. Os restos dessa extensa floresta podem ainda ser vistos nas nobres paragens de Wentworth, em Warncliffe Park, e ao derredor de Rotherdam. Lá aparecia, antigamente, o fabuloso Dragão Wanthley; lá se travavam muitas das mais desesperadas batalhas, durante a Guerra das Rosas. E lá também floresceram, em tempos distantes, aqueles bandos de proscritos galantes cujas façanhas se tornaram tão populares nas canções inglesas.”

“Esse, o nosso cenário principal. Quanto à data da nossa história, refere-se a um período de cerca do fim do reinado de Ricardo I, quando o seu regresso do longo cativeiro se tornou um acontecimento que os seus desesperados súditos – sujeitos, entrementes, a toda espécie de opressões decorrentes do seu estado – mais desejavam que esperavam. Os nobres, cujo poder se tornara exorbitante durante o reinado de Estêvão e os quais a prudência de Henrique II não tinha senão escassamente reduzido a um certo grau de sujeição à coroa, haviam então, readquirido da maneira mais ampla, a sua antiga liberdade, e desprezavam a débil interferência do Conselho de Estado inglês, fortificavam os seus castelos, aumentavam o número dos seus dependentes, e reduziam tudo o que os cercava a um estado de vassalagem, procurando, por todos os meios, colocar-se à frente de forças que lhes permitissem destacar-se nas agitações nacionais que pareciam iminentes.”               

 

Invasão normanda na Inglaterra

Entre os anos 1066 – 1075, os francos comandados pelo Duque Guilherme da Normandia, invadem a Inglaterra com objetivo de dominar seu território e aumentar suas riquezas. O território britânico era povoado pelos Anglos, Saxões, Celtas e Jutos, após a guerra com os normandos, os ingleses perderam seu reinado para o Duque Guilherme e foram colonizados pelos inimigos, dividindo o país.


Inglaterra antes da invasão Normanda 




















A história acontece no século XII, durante o reinado de Ricardo I, também chamado por Ricardo - Coração de Leão, no entanto, o rei está no Oriente Médio lutando contra os exércitos muçulmanos na Guerra Santa. A ausência de Ricardo, faz seu irmão Príncipe João substituí-lo no trono. O suplente é assombrado pelo possível regresso do irmão, então, decide promover um torneio com arqueiros e vassalos, e convida a realeza saxônia, o rei Cedric, Athelstane e Lady Rowena, porém, o encontro acirra a tensão entre os dois grupos.

Antes de o evento começar João causa intriga entre judeus e saxões, constrange um idoso judeu e sua filha, por fim, humilhando os dois povos. O desenvolvimento do enredo introduz personagens misteriosos, Cavaleiro Deserdado, Cavaleiro Negro, e um Arqueiro que mora oculto na floresta. Os vilões são os lordes francos, Reginald Front - de - Boeuf, Maurice De Bracy, e o templário Brian de Bois – Guilbert. Scott descreve de forma glamorosa e apontando muitos detalhes nos castelos, florestas, e lutas corpo a corpo.

Vamos ler um trecho do capítulo XXIX:

                                                                “A sua figura gigantesca domina a multidão. Os assaltantes lançam-se de novo sobre a brecha e a passagem é disputada corpo a corpo, homem a homem. Deus de Jacob! É como o choque de duas marés enfurecidas... o conflito de dois oceanos batidos por ventos adversos!”

“Afastou por momentos o olhar da janela, como se não pudesse mais suportar o espetáculo terrível.”

“- Olha de novo, Rebecca – pediu Ivanhoé, sem compreender a causa desse gesto. – O lançamento de flechas deve ter agora diminuído, já que estão lutando corpo a corpo. Olha de novo: agora há menos perigo.”

“Rebecca lançou novamente o olhar pela janela e exclamou quase no mesmo instante.”

“- Santos profetas da lei! Front-de-Boeuf e o Cavaleiro Negro lutam frente a frente, no meio da gritaria dos soldados, que esperam o resultado do combate! O céu está do lado dos oprimidos e dos cativos!”

“Depois, lançou um grito e exclamou:”

“- Ele está por terra! Ele está por terra!”

“- Quem? Por amor de Deus! – exclamou Ivanhoé. – Dize quem caiu!”

 

“Ivanhoé” é épico e dramático, o autor enaltece as características do Romantismo, as paixões intensas, o povo, e os valores culturais e políticos da Inglaterra. A monarquia, os domínios do Estado em mãos do suserano Ricardo, um monarca corajoso e honesto, e João negligente e traiçoeiro representa a corrupção desse sistema de governo. O romance de cavalaria também é um aspecto marcante, tanto pela dinâmica entre Lady Rowena e Wilfred, a moça é receptiva ao seu pretendente, quanto pela relação entre o guerreiro Brian de Bois – Guilbert, impetuoso e orgulhoso, e deseja casar com a judia Rebecca que lhe nega o coração, o guerreiro e a donzela tornam-se inimigos.   

A religiosidade e seus efeitos na sociedade inglesa medieval, a discriminação e perseguição a integrantes de outras religiões, tal qual, aos judeus que eram julgados pelo grupo normando, por seus costumes. Também, aos muçulmanos, que eram tirados de seus países para serem escravizados pela aristocracia normanda. O Padre Lucas Beaumanoir, Grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros Templários, influi na religiosidade e política, impõe as doutrinas da instituição pelo país. 

Wilfred é o herói da obra, inglês nativo que pratica atos grandiosos, age sempre em defesa dos fracos e, leva a justiça combatendo os vilões. Walter Scott mesclou a história dos monarcas (Ricardo I e Príncipe João), dos cruzados que guerreavam em defesa de Israel e dos preceitos cristãos, as tensões entre o povo natural da Normandia e o Saxão, com o romance de cavalaria. Partindo dos seus estudos sobre eventos históricos, narrou com plausibilidade e verossimilhança, envolvendo, sobretudo os leitores que se interessam por livros épicos e medievais.                              



Rei Ricardo I 














                                                                                          


                                                                         
Príncipe João D'Anjou 














Cavaleiros Templários 



Desenho de Cavaleiro Templário 



Fontes:  Biografia de Henrique II da Inglaterra - eBiografia 

 

O que foram as invasões normandas? - Brasil Escola (uol.com.br)



Venda de Gravuras Antigas, Vistas ópticas do século XVIII e Documentos Históricos - Galerie Napoléon (Paris) (gravuras-antigas.com)




Ordem dos Templários - InfoEscola



 Fonte das Imagens: Google Imagens 



             

  Ficha Técnica 
              
  País de origem: Reino Unido   
       
 Nome: Ivanhoé
               
             
                                         
                           

      




sábado, 20 de novembro de 2021

CRÍTICA | HOMEM - ARANHA: PERIGO É UM HOMEM CHAMADO TARÂNTULA

 Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 13/11/2021





A história é protagonizada pelo Homem – Aranha, lançada em 1974, supervisionado por Roy Thomas editor – chefe da Marvel Comics, que foi nomeado por Stan Lee dois anos antes. Nesse arco, acompanhamos o jovem Peter Parker dividindo-se entre a vida de super-herói e de garoto normal.

Peter está em uma viagem de navio com seus amigos, Mary Jane, Flash Thompson e Liz, porém, criminosos começam a atacar a tripulação. A quadrilha é liderada pelo Tarântula, codinome de Carlos LaMuerto. Ao longo da história Peter reflete sobre como sua vida se transformou após ser picado por uma aranha radioativa e, se tornar o “Cabeça de Teia”. Pensando em sua tia que se casou com um dos seus inimigos, e o assalto que está acontecendo, o rapaz está preocupado em manter todos em segurança, enfrentar os inimigos, e salvar o dia.     

A identidade secreta de Peter, o Homem – Aranha influencia e muda o seu “lado” Parker, obrigando-o a assumir responsabilidades, como proteger sua tia e seus amigos dos seus adversários. O roteiro de Gerry Conwal é infantil, enquanto a cena se desenrola e os diálogos explicam o fato que está acontecendo, e a abrangência a situações e temas diversos, levam à saturação do enredo. As onomatopeias dão sons a chutes e socos.  

Os desenhos de Ross Andru e F. Giacoia D. Hunt foram enquadrados, alternando, entre quadros verticais e horizontais, atribuindo harmonia à narrativa gráfica. Essa edição foi lançada na época em que as historias em quadrinhos nos Estados Unidos eram censuradas, a editora publicou seguindo as diretrizes impostas pelo Governo, portanto, abordagens aos temas, criminalidade, sexualidade, delinquência juvenil, eram proibidos, entre outros temas que eram contrários aos valores dos Estados Unidos.                                    


                                 

sábado, 6 de novembro de 2021

CRÍTICA | O CORTIÇO, DE ALUÍSIO AZEVEDO

Escrita em 02/11/2021 por Victor Hugo Sigoli de Campos 






O livro de Aluísio Azevedo retrata a vida em um cortiço no Rio de Janeiro em 1890, fundamentando-se nas teorias do movimento literário Realismo - Naturalismo, pressupondo que a arte deveria basear-se na ciência para retratar o ser humano, considerando o efeito do ambiente em que vive na sua personalidade e comportamento. Os personagens são João Romão, Miranda, Dona Estela, Zulmira, Bertoleza, Rita Baiana, Firmo, Pombinha, Leandra a “Machona”, Augusta, Leocádia, Agostinho, Alexandre, Marciana, Henrique, Dona Isabel, Bruxa, Jerônimo, Piedade e Senhorinha. 

João Romão é proprietário de um conjunto habitacional e uma estalagem, localizados em um bairro operário, ambiciona igualar o seu patrimônio ao do seu vizinho Miranda, e para isso explora Bertoleza. Miranda mora em uma casa grande e seu negócio de tecidos foi comprado com o dinheiro de sua esposa Dona Estela que trai o marido, o casal sustenta um casamento de aparências. O casal Jerônimo e Piedade são pais de Senhorinha, o pai de família tem uma derrocada moral após conhecer Rita Baiana, tornando-se um marido infiel e inimigo de Firmo namorado de Rita.

 Leiamos um trecho do Capítulo III:

                                           “Naquela manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que de costume, porque passara mal à noite. A velha, Isabel, que lhe ficava do lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistência, perguntou-lhe o que tinha.” 

                                            “Ah ! Muita moleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava!”

                                             “A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois, no meio de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias.”

                                             “ E, enquanto no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando lugar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do cortiço saíam homens para suas obrigações. Por uma porta que havia ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéu alto e sobrecasaca preta, passou lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à mulher, e recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com sua grande de caixa de bugigangas, saiu para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano.”

O livro apresenta muitas características da vida em comunidades, por exemplo, um senhor que tem um empreendimento um mercado, cujo local é frequentado por todos e é o “ponto de encontro” entre os moradores. Os moradores lavam roupas juntos, frequentam as casas uns dos outros, todos interagem, todos conversam, quando tem briga todos assistem. O autor intercala às suas descrições com os diálogos dos personagens, com linguagem técnica, com os termos científicos, “laboriosa”, “experimentação”.

A narrativa acontece em um espaço físico delimitado que propicia o contato entre os habitantes do cortiço, brigas, festas, lutas, sexo, são descritos de forma detalhista pelo autor, e o clima quente dos trópicos cria momentos de ação no enredo, logo o calor também é um elemento determinista. Os personagens passam por transformações, Romão enriquece e torna-se mais rico que Miranda, por fim sua ambição é atingida. O arco narrativo de Jerônimo é marcado pela sua decadência, inicia sendo pai de família, mas ao se apaixonar por Rita Baiana torna-se vítima dos seus próprios desejos.

Pombinha é uma das moradoras mais estimadas do local, estudante, ajuda a família a pagar às contas e escreve cartas para os seus vizinhos, mas é seduzida pela prostituta de luxo Léonie, tornando-se namorada dela e prostituta. Azevedo conta o começo, meio e fim do arco dos personagens, narra a história de forma onisciente sem envolver-se diretamente. As temáticas propostas são abordadas pela lógica causa - consequência, de forma que, o convívio e o vínculo estabelecidos entre os personagens determinam o desenvolvimento de seus arcos narrativos. 

A mentalidade estética de Aluísio Azevedo segue os princípios do Realismo – Naturalismo, cujo objetivo é representar fatos sociais em material litúrgico. O fim do século XIX marca o início da urbanização no Brasil, as populações de baixa renda eram empurradas para as áreas mais degradadas das cidades, processo que levou a formação da vida periférica nos morros. O escritor compõe um registro fiel à realidade, relevando mártires sociais que se criaram com a abolição da escravidão, exploração, hipocrisia e contraste entre riqueza e pobreza.      

 

Ficha Técnica

Nome: O Cortiço 

Autor: Aluísio Azevedo

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 192