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sábado, 11 de dezembro de 2021

CRÍTICA | IVANHOÉ, DE WALTER SCOTT

                   O Grande Romance de Cavalaria Inglesa 

                                    

                                  Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 09/12/2021


                                            

Ivanhoé foi escrito no século XIX pelo romancista escocês Walter Scott, o protagonista é o cavaleiro inglês Wilfred de Ivanhoé. O conto tem combates, traições, e conflitos entre muitos povos, elementos essenciais para literatura medieval. A introdução à dinastia Plantagenet, também conhecida por Plantageneta, sucessão de reis que governaram a Inglaterra do ano de 1154 a 1399, oriunda do Condado D’Anjou, na França, começaram seu reinado por meio do casamento da Rainha Inglesa Matilde (filha do rei Henrique I) com Godofredo V, e seu filho Henrique II que foi casado com Leonor da Aquitânia, dando sequência a linhagem da família com sete filhos, Guilherme, Henrique, Ricardo I, Matilde, Godofredo, Leonor, Joana e João.         

Brasão da Dinastia Plantagenet 




 
Rei Godofredo V 




Rainha Matilde 


























Leonor da Aquitânia 





Rei Henrique II




Vamos ler um trecho do capítulo I:

                                                           “Naquela região agradável da alegre Inglaterra que é banhada pelo rio Don, estendia-se, em época remota, uma grande floresta, cobrindo a maior parte das belas colinas e vales que jazem Sheffield e a aprazível localidade de Doncaster. Os restos dessa extensa floresta podem ainda ser vistos nas nobres paragens de Wentworth, em Warncliffe Park, e ao derredor de Rotherdam. Lá aparecia, antigamente, o fabuloso Dragão Wanthley; lá se travavam muitas das mais desesperadas batalhas, durante a Guerra das Rosas. E lá também floresceram, em tempos distantes, aqueles bandos de proscritos galantes cujas façanhas se tornaram tão populares nas canções inglesas.”

“Esse, o nosso cenário principal. Quanto à data da nossa história, refere-se a um período de cerca do fim do reinado de Ricardo I, quando o seu regresso do longo cativeiro se tornou um acontecimento que os seus desesperados súditos – sujeitos, entrementes, a toda espécie de opressões decorrentes do seu estado – mais desejavam que esperavam. Os nobres, cujo poder se tornara exorbitante durante o reinado de Estêvão e os quais a prudência de Henrique II não tinha senão escassamente reduzido a um certo grau de sujeição à coroa, haviam então, readquirido da maneira mais ampla, a sua antiga liberdade, e desprezavam a débil interferência do Conselho de Estado inglês, fortificavam os seus castelos, aumentavam o número dos seus dependentes, e reduziam tudo o que os cercava a um estado de vassalagem, procurando, por todos os meios, colocar-se à frente de forças que lhes permitissem destacar-se nas agitações nacionais que pareciam iminentes.”               

 

Invasão normanda na Inglaterra

Entre os anos 1066 – 1075, os francos comandados pelo Duque Guilherme da Normandia, invadem a Inglaterra com objetivo de dominar seu território e aumentar suas riquezas. O território britânico era povoado pelos Anglos, Saxões, Celtas e Jutos, após a guerra com os normandos, os ingleses perderam seu reinado para o Duque Guilherme e foram colonizados pelos inimigos, dividindo o país.


Inglaterra antes da invasão Normanda 




















A história acontece no século XII, durante o reinado de Ricardo I, também chamado por Ricardo - Coração de Leão, no entanto, o rei está no Oriente Médio lutando contra os exércitos muçulmanos na Guerra Santa. A ausência de Ricardo, faz seu irmão Príncipe João substituí-lo no trono. O suplente é assombrado pelo possível regresso do irmão, então, decide promover um torneio com arqueiros e vassalos, e convida a realeza saxônia, o rei Cedric, Athelstane e Lady Rowena, porém, o encontro acirra a tensão entre os dois grupos.

Antes de o evento começar João causa intriga entre judeus e saxões, constrange um idoso judeu e sua filha, por fim, humilhando os dois povos. O desenvolvimento do enredo introduz personagens misteriosos, Cavaleiro Deserdado, Cavaleiro Negro, e um Arqueiro que mora oculto na floresta. Os vilões são os lordes francos, Reginald Front - de - Boeuf, Maurice De Bracy, e o templário Brian de Bois – Guilbert. Scott descreve de forma glamorosa e apontando muitos detalhes nos castelos, florestas, e lutas corpo a corpo.

Vamos ler um trecho do capítulo XXIX:

                                                                “A sua figura gigantesca domina a multidão. Os assaltantes lançam-se de novo sobre a brecha e a passagem é disputada corpo a corpo, homem a homem. Deus de Jacob! É como o choque de duas marés enfurecidas... o conflito de dois oceanos batidos por ventos adversos!”

“Afastou por momentos o olhar da janela, como se não pudesse mais suportar o espetáculo terrível.”

“- Olha de novo, Rebecca – pediu Ivanhoé, sem compreender a causa desse gesto. – O lançamento de flechas deve ter agora diminuído, já que estão lutando corpo a corpo. Olha de novo: agora há menos perigo.”

“Rebecca lançou novamente o olhar pela janela e exclamou quase no mesmo instante.”

“- Santos profetas da lei! Front-de-Boeuf e o Cavaleiro Negro lutam frente a frente, no meio da gritaria dos soldados, que esperam o resultado do combate! O céu está do lado dos oprimidos e dos cativos!”

“Depois, lançou um grito e exclamou:”

“- Ele está por terra! Ele está por terra!”

“- Quem? Por amor de Deus! – exclamou Ivanhoé. – Dize quem caiu!”

 

“Ivanhoé” é épico e dramático, o autor enaltece as características do Romantismo, as paixões intensas, o povo, e os valores culturais e políticos da Inglaterra. A monarquia, os domínios do Estado em mãos do suserano Ricardo, um monarca corajoso e honesto, e João negligente e traiçoeiro representa a corrupção desse sistema de governo. O romance de cavalaria também é um aspecto marcante, tanto pela dinâmica entre Lady Rowena e Wilfred, a moça é receptiva ao seu pretendente, quanto pela relação entre o guerreiro Brian de Bois – Guilbert, impetuoso e orgulhoso, e deseja casar com a judia Rebecca que lhe nega o coração, o guerreiro e a donzela tornam-se inimigos.   

A religiosidade e seus efeitos na sociedade inglesa medieval, a discriminação e perseguição a integrantes de outras religiões, tal qual, aos judeus que eram julgados pelo grupo normando, por seus costumes. Também, aos muçulmanos, que eram tirados de seus países para serem escravizados pela aristocracia normanda. O Padre Lucas Beaumanoir, Grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros Templários, influi na religiosidade e política, impõe as doutrinas da instituição pelo país. 

Wilfred é o herói da obra, inglês nativo que pratica atos grandiosos, age sempre em defesa dos fracos e, leva a justiça combatendo os vilões. Walter Scott mesclou a história dos monarcas (Ricardo I e Príncipe João), dos cruzados que guerreavam em defesa de Israel e dos preceitos cristãos, as tensões entre o povo natural da Normandia e o Saxão, com o romance de cavalaria. Partindo dos seus estudos sobre eventos históricos, narrou com plausibilidade e verossimilhança, envolvendo, sobretudo os leitores que se interessam por livros épicos e medievais.                              



Rei Ricardo I 














                                                                                          


                                                                         
Príncipe João D'Anjou 














Cavaleiros Templários 



Desenho de Cavaleiro Templário 



Fontes:  Biografia de Henrique II da Inglaterra - eBiografia 

 

O que foram as invasões normandas? - Brasil Escola (uol.com.br)



Venda de Gravuras Antigas, Vistas ópticas do século XVIII e Documentos Históricos - Galerie Napoléon (Paris) (gravuras-antigas.com)




Ordem dos Templários - InfoEscola



 Fonte das Imagens: Google Imagens 



             

  Ficha Técnica 
              
  País de origem: Reino Unido   
       
 Nome: Ivanhoé
               
             
                                         
                           

      




sábado, 20 de novembro de 2021

CRÍTICA | HOMEM - ARANHA: PERIGO É UM HOMEM CHAMADO TARÂNTULA

 Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 13/11/2021





A história é protagonizada pelo Homem – Aranha, lançada em 1974, supervisionado por Roy Thomas editor – chefe da Marvel Comics, que foi nomeado por Stan Lee dois anos antes. Nesse arco, acompanhamos o jovem Peter Parker dividindo-se entre a vida de super-herói e de garoto normal.

Peter está em uma viagem de navio com seus amigos, Mary Jane, Flash Thompson e Liz, porém, criminosos começam a atacar a tripulação. A quadrilha é liderada pelo Tarântula, codinome de Carlos LaMuerto. Ao longo da história Peter reflete sobre como sua vida se transformou após ser picado por uma aranha radioativa e, se tornar o “Cabeça de Teia”. Pensando em sua tia que se casou com um dos seus inimigos, e o assalto que está acontecendo, o rapaz está preocupado em manter todos em segurança, enfrentar os inimigos, e salvar o dia.     

A identidade secreta de Peter, o Homem – Aranha influencia e muda o seu “lado” Parker, obrigando-o a assumir responsabilidades, como proteger sua tia e seus amigos dos seus adversários. O roteiro de Gerry Conwal é infantil, enquanto a cena se desenrola e os diálogos explicam o fato que está acontecendo, e a abrangência a situações e temas diversos, levam à saturação do enredo. As onomatopeias dão sons a chutes e socos.  

Os desenhos de Ross Andru e F. Giacoia D. Hunt foram enquadrados, alternando, entre quadros verticais e horizontais, atribuindo harmonia à narrativa gráfica. Essa edição foi lançada na época em que as historias em quadrinhos nos Estados Unidos eram censuradas, a editora publicou seguindo as diretrizes impostas pelo Governo, portanto, abordagens aos temas, criminalidade, sexualidade, delinquência juvenil, eram proibidos, entre outros temas que eram contrários aos valores dos Estados Unidos.                                    


                                 

sábado, 6 de novembro de 2021

CRÍTICA | O CORTIÇO, DE ALUÍSIO AZEVEDO

Escrita em 02/11/2021 por Victor Hugo Sigoli de Campos 






O livro de Aluísio Azevedo retrata a vida em um cortiço no Rio de Janeiro em 1890, fundamentando-se nas teorias do movimento literário Realismo - Naturalismo, pressupondo que a arte deveria basear-se na ciência para retratar o ser humano, considerando o efeito do ambiente em que vive na sua personalidade e comportamento. Os personagens são João Romão, Miranda, Dona Estela, Zulmira, Bertoleza, Rita Baiana, Firmo, Pombinha, Leandra a “Machona”, Augusta, Leocádia, Agostinho, Alexandre, Marciana, Henrique, Dona Isabel, Bruxa, Jerônimo, Piedade e Senhorinha. 

João Romão é proprietário de um conjunto habitacional e uma estalagem, localizados em um bairro operário, ambiciona igualar o seu patrimônio ao do seu vizinho Miranda, e para isso explora Bertoleza. Miranda mora em uma casa grande e seu negócio de tecidos foi comprado com o dinheiro de sua esposa Dona Estela que trai o marido, o casal sustenta um casamento de aparências. O casal Jerônimo e Piedade são pais de Senhorinha, o pai de família tem uma derrocada moral após conhecer Rita Baiana, tornando-se um marido infiel e inimigo de Firmo namorado de Rita.

 Leiamos um trecho do Capítulo III:

                                           “Naquela manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que de costume, porque passara mal à noite. A velha, Isabel, que lhe ficava do lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistência, perguntou-lhe o que tinha.” 

                                            “Ah ! Muita moleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava!”

                                             “A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois, no meio de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias.”

                                             “ E, enquanto no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando lugar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do cortiço saíam homens para suas obrigações. Por uma porta que havia ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéu alto e sobrecasaca preta, passou lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à mulher, e recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com sua grande de caixa de bugigangas, saiu para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano.”

O livro apresenta muitas características da vida em comunidades, por exemplo, um senhor que tem um empreendimento um mercado, cujo local é frequentado por todos e é o “ponto de encontro” entre os moradores. Os moradores lavam roupas juntos, frequentam as casas uns dos outros, todos interagem, todos conversam, quando tem briga todos assistem. O autor intercala às suas descrições com os diálogos dos personagens, com linguagem técnica, com os termos científicos, “laboriosa”, “experimentação”.

A narrativa acontece em um espaço físico delimitado que propicia o contato entre os habitantes do cortiço, brigas, festas, lutas, sexo, são descritos de forma detalhista pelo autor, e o clima quente dos trópicos cria momentos de ação no enredo, logo o calor também é um elemento determinista. Os personagens passam por transformações, Romão enriquece e torna-se mais rico que Miranda, por fim sua ambição é atingida. O arco narrativo de Jerônimo é marcado pela sua decadência, inicia sendo pai de família, mas ao se apaixonar por Rita Baiana torna-se vítima dos seus próprios desejos.

Pombinha é uma das moradoras mais estimadas do local, estudante, ajuda a família a pagar às contas e escreve cartas para os seus vizinhos, mas é seduzida pela prostituta de luxo Léonie, tornando-se namorada dela e prostituta. Azevedo conta o começo, meio e fim do arco dos personagens, narra a história de forma onisciente sem envolver-se diretamente. As temáticas propostas são abordadas pela lógica causa - consequência, de forma que, o convívio e o vínculo estabelecidos entre os personagens determinam o desenvolvimento de seus arcos narrativos. 

A mentalidade estética de Aluísio Azevedo segue os princípios do Realismo – Naturalismo, cujo objetivo é representar fatos sociais em material litúrgico. O fim do século XIX marca o início da urbanização no Brasil, as populações de baixa renda eram empurradas para as áreas mais degradadas das cidades, processo que levou a formação da vida periférica nos morros. O escritor compõe um registro fiel à realidade, relevando mártires sociais que se criaram com a abolição da escravidão, exploração, hipocrisia e contraste entre riqueza e pobreza.      

 

Ficha Técnica

Nome: O Cortiço 

Autor: Aluísio Azevedo

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 192 




   











sábado, 23 de outubro de 2021

CRÍTICA | DEATH NOTE: BLACK EDITION VOL. II, DE TSUGUMI OHBA E TAKESHI OBATA

     Suspense psicológico e envolvente 

Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos 20/10/2021                                   

O segundo volume começa a partir do momento em que terminou o primeiro, quando Light Yagami está procurando câmeras e escutas da polícia em seu quarto com a ajuda de Ryuk. A narrativa da sequência é marcada pelas implacáveis investigações lideradas pelo investigador L ao assassino em série Kira, muitas surpresas aguardam os leitores, são as consequências de ações e decisões tomadas no primeiro volume.

Light está empenhando-se em obstruir os progressos da polícia, e L tem o objetivo de aproximar-se dele, pois, o considera suspeito de ser Kira, então, convida-o para integrar sua equipe. Light e L ingressam na Universidade Tou-Oh, e no primeiro dia de aula jogam uma partida de Tênis muito disputada, o detetive mais eficiente do mundo contra o assassino mais calculista do mundo, demonstrando a rivalidade entre duas mentes brilhantes e que se atraem com o objetivo de superar à outra. O Shinigami Ryuk continua sua participação de forma cômica e de indiferença com relação à humanidade, revela de forma direta sua intenção com o protagonista, intensificando à atmosfera sobrenatural. 




A trama ganha novos personagens, a Shinigami Rem e o Segundo Kira, que são unidos por fatalidades, e a obrigação de Rem é proteger o novo assassino. Esse novo Kira também age executando criminosos, e apoia e protege o Kira original das emissoras de televisão e da polícia, o seu objetivo maior é conhecer o seu “Criador”. Enquanto, as suspeitas em torno de Light crescem, seu pai, um dos investigadores da equipe de L tem o objetivo de salvá-lo das operações. L é o personagem mais enigmático da narrativa, de forma que cada parte da sua origem é abordada de forma contida e, seu comportamento peculiar. 

Os desenhos de Takeshi Obata mantém o nível de qualidade do primeiro volume, destaque para o contraste entre Ryuk e Rem, representações das personalidades, do Kira e do Segundo Kira. O roteiro de Tsugumi Ohba continua explicativo e objetivo, sem frases de efeito, e suscitando as discussões psicológicas na vida de adolescentes.

Death Note volume dois impacta tanto quanto o primeiro, tem personagens que fazem a trama avançar de forma surpreendente. Os temas abordados: Uma mente brilhante atrai outra, um assassino atrai outro, e os deuses representam o que as pessoas são e desejam, determinarão os rumos da saga.      

Sugestão: Crítica Death Note: Black Edition Vol. I


mitem.auction.co.kr 













Arquivo Pessoal












mocah.org



                                                                      

                      








Ficha técnica do livro 

País de origem: Japão 

Nome: Death Note - Black Edition Vol. II

Autor: Tsugumi Ohba, Takeshi Obata. 

Editora original: Shueisha 

Data original de publicação: 2003

Editora no Brasil: JBC Editora 

Tradução: Rica Sakata 

Data de publicação: 2010

Páginas: 400













  

                                      


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

CRÍTICA | AUTO DA BARCA DO INFERNO, DE GIL VICENTE

 Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 03/10/2021



 

Auto da Barca do Inferno é um livro escrito pelo dramaturgo português Gil Vicente em 1517, durante o Humanismo (Renascimento), movimento que princípio um o Antropocentrismo, a racionalidade, e valorização do corpo humano e das emoções. O livro insere personagens de diferentes classes sociais, clero, nobreza e povo, em um rio imaginário onde compreendem se devem entrar no Paraíso ou no Inferno, com o Anjo e o Diabo exercendo o papel de juízes na história.

Os personagens julgados são o Fidalgo, Onzeneiro, Sapateiro, Parvo, Frade, Alcoviteira, Corregedor, Procurador, Judeu, Enforcado, e Os Quatro Cavaleiros,  todos querem entrar na Barca do Anjo, ou seja, ir para o Paraíso. Todos os personagens são julgados pelo Anjo e o Diabo, conforme, as atitudes as ações dos personagens praticaram em vida, por exemplo, o Fidalgo além de usar um empregado para carregá-lo nas costas, demonstra ser prepotente e vaidoso, e mesmo assim, tenta entrar na barca do Anjo que diz: “Não se embarca a tirania neste batel divinal”, conformando-se em entrar na Barca do Diabo, sente que é preciso reconhecer as transgressões que cometeu, e é condenado por sua soberba e vaidade.

Gil Vicente estruturou sua narrativa com diálogos poéticos e elementos metafóricos, rio, barcas, porto, Anjo, Diabo, que representam conceitos. A palavra “Auto”, é uma referência ao teatro medieval, período que influenciou a tradição cultural e literária que inspiraram as ideias do autor, e também é referente aos julgamentos que os personagens estão enfrentando, ao assumirem para o Anjo e o Diabo os percalços que praticaram durante a vida, para depois serem punidos.

É perceptível que para Gil Vicente não bastava assumir ser cristão, também era necessário praticar os valores cristãos, bondade, honestidade, solidariedade, ser fiel ao que acredita. Os Quatro Cavaleiros entraram na embarcação do Anjo, porque lutaram em nome do Cristianismo, sendo assim, considerados os únicos personagens puros. Auto da Barca do Inferno demonstra que a escolha de morrer defendendo a fé católica  prevalece sobre os valores individuais, o objetivo do autor era corrigir à sociedade levando sátira e moral originadas no período medieval.         


Ficha Técnica

Nome: Auto da Barca do Inferno

Autor: Gil Vicente

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 112



Renascimento - Artes Enem | Educa Mais Brasil             

Resumo e análise completa do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente - Cultura Genial                                                               

                                  

                              


       


sábado, 25 de setembro de 2021

CRÍTICA | MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, DE MACHADO DE ASSIS

 

Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 22/09/2021 

 



O escritor Machado de Assis publicou em 1881 o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra que retrata a elite da sociedade do Rio de Janeiro no século XIX. O protagonista é o defunto Brás Cubas que conta ao leitor à sua biografia de forma fragmentada, durante o tempo que relembra fatos e momentos da sua vida, os personagens vão e voltam na narrativa.

Brás Cubas compartilha sua relação com seus familiares, seus amores e sua vida como político, concentrando-se em situações que despertam tristezas e conflitos. Sua mãe era bonita, piedosa e frágil, o pai era muito protetor e condescendente com o filho que era astuto, indiscreto, travesso. O tio cônego de Brás criticava a falta de correção do seu sobrinho.

Aos dezessete anos Brás vai para Portugal estudar Direito na Universidade de Coimbra, e a vontade do seu pai era de que se tornasse Deputado assim que retornasse ao Brasil. Entre seus relacionamentos amorosos, namorou com Eugênia, a filha de uma amiga pobre da sua família, mas descartou-a porque era coxa, posteriormente o seu pai tentou arranjar um casamento com Virgília, filha de um político, o Conselheiro Dutra. Virgília se casa com Lobo Neves, porém, trai o marido com Brás Cubas.

A narrativa do livro é fluida e, está de acordo com o vocabulário da época, com muita nuances para o leitor refletir, o narrador contraditório, aspectos psicológicos, relação entre causa e consequência por exemplo, na infância Brás foi abastado e protegido tornando-se um adulto hipócrita. O protagonista conta a sua história de forma irônica, fala diretamente com o leitor, levando-o a se posicionar sobre as temáticas abordadas, logo, prevalece a compreensão dos leitores. As digressões são características do romance e, relevam a compleição psicológica do protagonista que em determinados momentos interpela um tema e desvia-se perdendo o objetivo. Leiamos um trecho do Capítulo 31- A Borboleta Preta:

                                     “ – No dia seguinte como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra quanto a outra e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me, entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar de escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão nos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu."

                                          "- Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me. Tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado."

                                          "- Também por que diabo não era ela azul? Disse comigo. E esta reflexão, - uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. Amanhã era linda. Veio por ali fora, modesta, negra, espairecendo suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto o que era o homem; movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A idéia subjugou-a,      aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia."

                                         "- Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessa-se com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as providas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.”

O leitor percebe que Brás Cubas observa e disserta sobre os movimentos da borboleta em relação ao retrato do seu pai, mas sai do foco de sua análise. A reação do protagonista em relação a borboleta é racista. Machado de Assis se baseou na elite carioca do seu tempo para construir a história, classe social que em sua maioria era formada por políticos que estudavam em universidades europeias, usufruíram de conhecimento, filosofia, direito, história, literatura clássica, com o objetivo de adquirir poderes, (atente-se para os pensadores citados por Brás, William Shakespeare, Henri Marie-Beyle, Miguel de Cervantes, Blaise Pascal, Virgílio, Laplace entre outros) eram burgueses que se tornavam diplomatas para administrar o Brasil com regime escravocrata. 

A obra representa o Realismo da literatura nacional, os personagens são retratados conforme as pessoas da época, para Machado de Assis Brás é a referência para os homens da classe dominante na sociedade brasileira no século XIX. O personagem nasceu em família abastada e tinha benefícios, privilégios, poderes, mas aos sessenta e quatro anos percebe que não teve feitos significativos, por exemplo, não casou, não teve filhos e, idoso sente que precisa acudir a filosofia para redefinir o propósito da sua existência, pois, mesmo tendo recursos ele não usou para construir vida significativa.

 

Ficha Técnica

Nome: Memórias Póstumas de Brás Cubas

Autor: Machado de Assis

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 256


       

                                               

                                                                        

                                                 






sábado, 4 de setembro de 2021

CRÍTICA | DEATH NOTE: BLACK EDITION VOL. I, DE TSUGUMI OHBA E TAKESHI OBATA


Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 31/08/2021 


Death Note é um mangá publicado em 2003 no Japão, bem sucedido tanto em seu país quanto no mundo. Os mangás são os histórias em quadrinhos japonesas, e Death Note mescla a vida de um adolescente (já indicando o público - alvo do mangá) com elementos da mitologia japonesa. A vida de Light Yagami muda ao encontrar um caderno, o objeto é um elemento sobrenatural que dá poderes ao seu portador.

Light tem dezessete anos e é um dos estudantes mais proeminentes do Japão, mora com sua família na região de Kanto, onde se localiza Tóquio. Ao sair da escola encontra o Death Note (Caderno da Morte) o objeto possui regras transcritas em suas páginas, acerca dos seus métodos de uso, basta escrever o nome de uma pessoa no Death Note, e ela morre logo em seguida. O garoto é motivado pelo desejo de fazer justiça, então, escreve os nomes de criminosos, porque, quer tornar o mundo melhor, a mídia cobre, e a polícia investiga os casos, e começam a chamar o responsável pelas mortes “Kira” (assassino em japonês).

A Polícia japonesa, Interpol, FBI, fazem uma conferência para determinar e planejar ações contra o “Kira”. Surge um enigmático detetive particular conhecido como “L”, é o adversário mais efetivo do protagonista. O roteiro escrito por Tsugumi Ohba tem diálogos objetivos e explicativos, e as informações se repetem durante os diálogos, o autor está justificando as motivações dos personagens ao leitor.

A arte de Takeshi Obata é exótica e insere efetivamente o leitor na cultura e na vida japonesa, a edição de luxo (eu li) é em estilo chiaroscuro, transformando a narrativa em thriller psicológico. Um dos elementos mais interessantes do mangá é o Shinigami Ryuk (Deus da Morte), é o verdadeiro dono do Death Note e é visto somente por Light.  

Ryuk é assustador, alto, tem olhos grandes e petrificados, tem asas e, rosto branco e, representa o desejo e poder de Light tem para matar. A expressão insana e gélida do Deus da Morte demonstra que o seu objetivo é manipular o adolescente. O momento falho é a interação entre Light e a ex-detetive do FBI, Naomi Misora, é gratuita e, precisava ter sido melhor elaborada, pois, o desenrolar dessa parte é convenientemente favorável a Light. 

As sequências de diálogos são longas, por exemplo, as conversas com Ryuk e o assalto ao ônibus planejado por Light, aprofundam temas, por exemplo, o poder, desejo de fazer justiça, os personagens não estão apenas interagindo entre eles, são elementos que simbolizam os conceitos dos autores e estão debatendo com o leitor. Death Note termina no volume seis, então, para a sequência podemos esperar mais tensão do contraponto “Kira” e “L”, e outros Shinigamis entrando no mundo dos humanos.                              
                                           

                                          

Capa da Edição de Luxo                                                                                  


                        


                                                                                                                                                                                                                                                                                        

     Capa da Edição Original


Fonte Google Imagens 


Ficha técnica do livro 

Nome: Death Note - Black Edition Vol. 1

Autor: Tsugumi Ohba, Takeshi Obata 

Editora original: Shueisha Inc. Tokyo 

Data original de publicação: 2003

Editora no Brasil: JBC Editora 

Tradução: Rica Sakata

Data de publicação: 2010

Páginas: 400