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sábado, 20 de novembro de 2021

CRÍTICA | HOMEM - ARANHA: PERIGO É UM HOMEM CHAMADO TARÂNTULA

 Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 13/11/2021





A história é protagonizada pelo Homem – Aranha, lançada em 1974, supervisionado por Roy Thomas editor – chefe da Marvel Comics, que foi nomeado por Stan Lee dois anos antes. Nesse arco, acompanhamos o jovem Peter Parker dividindo-se entre a vida de super-herói e de garoto normal.

Peter está em uma viagem de navio com seus amigos, Mary Jane, Flash Thompson e Liz, porém, criminosos começam a atacar a tripulação. A quadrilha é liderada pelo Tarântula, codinome de Carlos LaMuerto. Ao longo da história Peter reflete sobre como sua vida se transformou após ser picado por uma aranha radioativa e, se tornar o “Cabeça de Teia”. Pensando em sua tia que se casou com um dos seus inimigos, e o assalto que está acontecendo, o rapaz está preocupado em manter todos em segurança, enfrentar os inimigos, e salvar o dia.     

A identidade secreta de Peter, o Homem – Aranha influencia e muda o seu “lado” Parker, obrigando-o a assumir responsabilidades, como proteger sua tia e seus amigos dos seus adversários. O roteiro de Gerry Conwal é infantil, enquanto a cena se desenrola e os diálogos explicam o fato que está acontecendo, e a abrangência a situações e temas diversos, levam à saturação do enredo. As onomatopeias dão sons a chutes e socos.  

Os desenhos de Ross Andru e F. Giacoia D. Hunt foram enquadrados, alternando, entre quadros verticais e horizontais, atribuindo harmonia à narrativa gráfica. Essa edição foi lançada na época em que as historias em quadrinhos nos Estados Unidos eram censuradas, a editora publicou seguindo as diretrizes impostas pelo Governo, portanto, abordagens aos temas, criminalidade, sexualidade, delinquência juvenil, eram proibidos, entre outros temas que eram contrários aos valores dos Estados Unidos.                                    


                                 

sábado, 6 de novembro de 2021

CRÍTICA | O CORTIÇO, DE ALUÍSIO AZEVEDO

Escrita em 02/11/2021 por Victor Hugo Sigoli de Campos 






O livro de Aluísio Azevedo retrata a vida em um cortiço no Rio de Janeiro em 1890, fundamentando-se nas teorias do movimento literário Realismo - Naturalismo, pressupondo que a arte deveria basear-se na ciência para retratar o ser humano, considerando o efeito do ambiente em que vive na sua personalidade e comportamento. Os personagens são João Romão, Miranda, Dona Estela, Zulmira, Bertoleza, Rita Baiana, Firmo, Pombinha, Leandra a “Machona”, Augusta, Leocádia, Agostinho, Alexandre, Marciana, Henrique, Dona Isabel, Bruxa, Jerônimo, Piedade e Senhorinha. 

João Romão é proprietário de um conjunto habitacional e uma estalagem, localizados em um bairro operário, ambiciona igualar o seu patrimônio ao do seu vizinho Miranda, e para isso explora Bertoleza. Miranda mora em uma casa grande e seu negócio de tecidos foi comprado com o dinheiro de sua esposa Dona Estela que trai o marido, o casal sustenta um casamento de aparências. O casal Jerônimo e Piedade são pais de Senhorinha, o pai de família tem uma derrocada moral após conhecer Rita Baiana, tornando-se um marido infiel e inimigo de Firmo namorado de Rita.

 Leiamos um trecho do Capítulo III:

                                           “Naquela manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que de costume, porque passara mal à noite. A velha, Isabel, que lhe ficava do lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistência, perguntou-lhe o que tinha.” 

                                            “Ah ! Muita moleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava!”

                                             “A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois, no meio de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias.”

                                             “ E, enquanto no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando lugar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do cortiço saíam homens para suas obrigações. Por uma porta que havia ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéu alto e sobrecasaca preta, passou lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à mulher, e recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com sua grande de caixa de bugigangas, saiu para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano.”

O livro apresenta muitas características da vida em comunidades, por exemplo, um senhor que tem um empreendimento um mercado, cujo local é frequentado por todos e é o “ponto de encontro” entre os moradores. Os moradores lavam roupas juntos, frequentam as casas uns dos outros, todos interagem, todos conversam, quando tem briga todos assistem. O autor intercala às suas descrições com os diálogos dos personagens, com linguagem técnica, com os termos científicos, “laboriosa”, “experimentação”.

A narrativa acontece em um espaço físico delimitado que propicia o contato entre os habitantes do cortiço, brigas, festas, lutas, sexo, são descritos de forma detalhista pelo autor, e o clima quente dos trópicos cria momentos de ação no enredo, logo o calor também é um elemento determinista. Os personagens passam por transformações, Romão enriquece e torna-se mais rico que Miranda, por fim sua ambição é atingida. O arco narrativo de Jerônimo é marcado pela sua decadência, inicia sendo pai de família, mas ao se apaixonar por Rita Baiana torna-se vítima dos seus próprios desejos.

Pombinha é uma das moradoras mais estimadas do local, estudante, ajuda a família a pagar às contas e escreve cartas para os seus vizinhos, mas é seduzida pela prostituta de luxo Léonie, tornando-se namorada dela e prostituta. Azevedo conta o começo, meio e fim do arco dos personagens, narra a história de forma onisciente sem envolver-se diretamente. As temáticas propostas são abordadas pela lógica causa - consequência, de forma que, o convívio e o vínculo estabelecidos entre os personagens determinam o desenvolvimento de seus arcos narrativos. 

A mentalidade estética de Aluísio Azevedo segue os princípios do Realismo – Naturalismo, cujo objetivo é representar fatos sociais em material litúrgico. O fim do século XIX marca o início da urbanização no Brasil, as populações de baixa renda eram empurradas para as áreas mais degradadas das cidades, processo que levou a formação da vida periférica nos morros. O escritor compõe um registro fiel à realidade, relevando mártires sociais que se criaram com a abolição da escravidão, exploração, hipocrisia e contraste entre riqueza e pobreza.      

 

Ficha Técnica

Nome: O Cortiço 

Autor: Aluísio Azevedo

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 192 




   











sábado, 23 de outubro de 2021

CRÍTICA | DEATH NOTE: BLACK EDITION VOL. II, DE TSUGUMI OHBA E TAKESHI OBATA

     Suspense psicológico e envolvente 

Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos 20/10/2021                                   

O segundo volume começa a partir do momento em que terminou o primeiro, quando Light Yagami está procurando câmeras e escutas da polícia em seu quarto com a ajuda de Ryuk. A narrativa da sequência é marcada pelas implacáveis investigações lideradas pelo investigador L ao assassino em série Kira, muitas surpresas aguardam os leitores, são as consequências de ações e decisões tomadas no primeiro volume.

Light está empenhando-se em obstruir os progressos da polícia, e L tem o objetivo de aproximar-se dele, pois, o considera suspeito de ser Kira, então, convida-o para integrar sua equipe. Light e L ingressam na Universidade Tou-Oh, e no primeiro dia de aula jogam uma partida de Tênis muito disputada, o detetive mais eficiente do mundo contra o assassino mais calculista do mundo, demonstrando a rivalidade entre duas mentes brilhantes e que se atraem com o objetivo de superar à outra. O Shinigami Ryuk continua sua participação de forma cômica e de indiferença com relação à humanidade, revela de forma direta sua intenção com o protagonista, intensificando à atmosfera sobrenatural. 




A trama ganha novos personagens, a Shinigami Rem e o Segundo Kira, que são unidos por fatalidades, e a obrigação de Rem é proteger o novo assassino. Esse novo Kira também age executando criminosos, e apoia e protege o Kira original das emissoras de televisão e da polícia, o seu objetivo maior é conhecer o seu “Criador”. Enquanto, as suspeitas em torno de Light crescem, seu pai, um dos investigadores da equipe de L tem o objetivo de salvá-lo das operações. L é o personagem mais enigmático da narrativa, de forma que cada parte da sua origem é abordada de forma contida e, seu comportamento peculiar. 

Os desenhos de Takeshi Obata mantém o nível de qualidade do primeiro volume, destaque para o contraste entre Ryuk e Rem, representações das personalidades, do Kira e do Segundo Kira. O roteiro de Tsugumi Ohba continua explicativo e objetivo, sem frases de efeito, e suscitando as discussões psicológicas na vida de adolescentes.

Death Note volume dois impacta tanto quanto o primeiro, tem personagens que fazem a trama avançar de forma surpreendente. Os temas abordados: Uma mente brilhante atrai outra, um assassino atrai outro, e os deuses representam o que as pessoas são e desejam, determinarão os rumos da saga.      

Sugestão: Crítica Death Note: Black Edition Vol. I


mitem.auction.co.kr 













Arquivo Pessoal












mocah.org



                                                                      

                      








Ficha técnica do livro 

País de origem: Japão 

Nome: Death Note - Black Edition Vol. II

Autor: Tsugumi Ohba, Takeshi Obata. 

Editora original: Shueisha 

Data original de publicação: 2003

Editora no Brasil: JBC Editora 

Tradução: Rica Sakata 

Data de publicação: 2010

Páginas: 400













  

                                      


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

CRÍTICA | AUTO DA BARCA DO INFERNO, DE GIL VICENTE

 Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 03/10/2021



 

Auto da Barca do Inferno é um livro escrito pelo dramaturgo português Gil Vicente em 1517, durante o Humanismo (Renascimento), movimento que princípio um o Antropocentrismo, a racionalidade, e valorização do corpo humano e das emoções. O livro insere personagens de diferentes classes sociais, clero, nobreza e povo, em um rio imaginário onde compreendem se devem entrar no Paraíso ou no Inferno, com o Anjo e o Diabo exercendo o papel de juízes na história.

Os personagens julgados são o Fidalgo, Onzeneiro, Sapateiro, Parvo, Frade, Alcoviteira, Corregedor, Procurador, Judeu, Enforcado, e Os Quatro Cavaleiros,  todos querem entrar na Barca do Anjo, ou seja, ir para o Paraíso. Todos os personagens são julgados pelo Anjo e o Diabo, conforme, as atitudes as ações dos personagens praticaram em vida, por exemplo, o Fidalgo além de usar um empregado para carregá-lo nas costas, demonstra ser prepotente e vaidoso, e mesmo assim, tenta entrar na barca do Anjo que diz: “Não se embarca a tirania neste batel divinal”, conformando-se em entrar na Barca do Diabo, sente que é preciso reconhecer as transgressões que cometeu, e é condenado por sua soberba e vaidade.

Gil Vicente estruturou sua narrativa com diálogos poéticos e elementos metafóricos, rio, barcas, porto, Anjo, Diabo, que representam conceitos. A palavra “Auto”, é uma referência ao teatro medieval, período que influenciou a tradição cultural e literária que inspiraram as ideias do autor, e também é referente aos julgamentos que os personagens estão enfrentando, ao assumirem para o Anjo e o Diabo os percalços que praticaram durante a vida, para depois serem punidos.

É perceptível que para Gil Vicente não bastava assumir ser cristão, também era necessário praticar os valores cristãos, bondade, honestidade, solidariedade, ser fiel ao que acredita. Os Quatro Cavaleiros entraram na embarcação do Anjo, porque lutaram em nome do Cristianismo, sendo assim, considerados os únicos personagens puros. Auto da Barca do Inferno demonstra que a escolha de morrer defendendo a fé católica  prevalece sobre os valores individuais, o objetivo do autor era corrigir à sociedade levando sátira e moral originadas no período medieval.         


Ficha Técnica

Nome: Auto da Barca do Inferno

Autor: Gil Vicente

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 112



Renascimento - Artes Enem | Educa Mais Brasil             

Resumo e análise completa do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente - Cultura Genial                                                               

                                  

                              


       


sábado, 25 de setembro de 2021

CRÍTICA | MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, DE MACHADO DE ASSIS

 

Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 22/09/2021 

 



O escritor Machado de Assis publicou em 1881 o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra que retrata a elite da sociedade do Rio de Janeiro no século XIX. O protagonista é o defunto Brás Cubas que conta ao leitor à sua biografia de forma fragmentada, durante o tempo que relembra fatos e momentos da sua vida, os personagens vão e voltam na narrativa.

Brás Cubas compartilha sua relação com seus familiares, seus amores e sua vida como político, concentrando-se em situações que despertam tristezas e conflitos. Sua mãe era bonita, piedosa e frágil, o pai era muito protetor e condescendente com o filho que era astuto, indiscreto, travesso. O tio cônego de Brás criticava a falta de correção do seu sobrinho.

Aos dezessete anos Brás vai para Portugal estudar Direito na Universidade de Coimbra, e a vontade do seu pai era de que se tornasse Deputado assim que retornasse ao Brasil. Entre seus relacionamentos amorosos, namorou com Eugênia, a filha de uma amiga pobre da sua família, mas descartou-a porque era coxa, posteriormente o seu pai tentou arranjar um casamento com Virgília, filha de um político, o Conselheiro Dutra. Virgília se casa com Lobo Neves, porém, trai o marido com Brás Cubas.

A narrativa do livro é fluida e, está de acordo com o vocabulário da época, com muita nuances para o leitor refletir, o narrador contraditório, aspectos psicológicos, relação entre causa e consequência por exemplo, na infância Brás foi abastado e protegido tornando-se um adulto hipócrita. O protagonista conta a sua história de forma irônica, fala diretamente com o leitor, levando-o a se posicionar sobre as temáticas abordadas, logo, prevalece a compreensão dos leitores. As digressões são características do romance e, relevam a compleição psicológica do protagonista que em determinados momentos interpela um tema e desvia-se perdendo o objetivo. Leiamos um trecho do Capítulo 31- A Borboleta Preta:

                                     “ – No dia seguinte como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra quanto a outra e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me, entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar de escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão nos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu."

                                          "- Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me. Tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado."

                                          "- Também por que diabo não era ela azul? Disse comigo. E esta reflexão, - uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. Amanhã era linda. Veio por ali fora, modesta, negra, espairecendo suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto o que era o homem; movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: “Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A idéia subjugou-a,      aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia."

                                         "- Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessa-se com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as providas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.”

O leitor percebe que Brás Cubas observa e disserta sobre os movimentos da borboleta em relação ao retrato do seu pai, mas sai do foco de sua análise. A reação do protagonista em relação a borboleta é racista. Machado de Assis se baseou na elite carioca do seu tempo para construir a história, classe social que em sua maioria era formada por políticos que estudavam em universidades europeias, usufruíram de conhecimento, filosofia, direito, história, literatura clássica, com o objetivo de adquirir poderes, (atente-se para os pensadores citados por Brás, William Shakespeare, Henri Marie-Beyle, Miguel de Cervantes, Blaise Pascal, Virgílio, Laplace entre outros) eram burgueses que se tornavam diplomatas para administrar o Brasil com regime escravocrata. 

A obra representa o Realismo da literatura nacional, os personagens são retratados conforme as pessoas da época, para Machado de Assis Brás é a referência para os homens da classe dominante na sociedade brasileira no século XIX. O personagem nasceu em família abastada e tinha benefícios, privilégios, poderes, mas aos sessenta e quatro anos percebe que não teve feitos significativos, por exemplo, não casou, não teve filhos e, idoso sente que precisa acudir a filosofia para redefinir o propósito da sua existência, pois, mesmo tendo recursos ele não usou para construir vida significativa.

 

Ficha Técnica

Nome: Memórias Póstumas de Brás Cubas

Autor: Machado de Assis

Editora: Klick Editora/ Jornal O Estado de S. Paulo

Número de páginas: 256


       

                                               

                                                                        

                                                 






sábado, 4 de setembro de 2021

CRÍTICA | DEATH NOTE: BLACK EDITION VOL. I, DE TSUGUMI OHBA E TAKESHI OBATA


Escrita por Victor Hugo Sigoli de Campos em 31/08/2021 


Death Note é um mangá publicado em 2003 no Japão, bem sucedido tanto em seu país quanto no mundo. Os mangás são os histórias em quadrinhos japonesas, e Death Note mescla a vida de um adolescente (já indicando o público - alvo do mangá) com elementos da mitologia japonesa. A vida de Light Yagami muda ao encontrar um caderno, o objeto é um elemento sobrenatural que dá poderes ao seu portador.

Light tem dezessete anos e é um dos estudantes mais proeminentes do Japão, mora com sua família na região de Kanto, onde se localiza Tóquio. Ao sair da escola encontra o Death Note (Caderno da Morte) o objeto possui regras transcritas em suas páginas, acerca dos seus métodos de uso, basta escrever o nome de uma pessoa no Death Note, e ela morre logo em seguida. O garoto é motivado pelo desejo de fazer justiça, então, escreve os nomes de criminosos, porque, quer tornar o mundo melhor, a mídia cobre, e a polícia investiga os casos, e começam a chamar o responsável pelas mortes “Kira” (assassino em japonês).

A Polícia japonesa, Interpol, FBI, fazem uma conferência para determinar e planejar ações contra o “Kira”. Surge um enigmático detetive particular conhecido como “L”, é o adversário mais efetivo do protagonista. O roteiro escrito por Tsugumi Ohba tem diálogos objetivos e explicativos, e as informações se repetem durante os diálogos, o autor está justificando as motivações dos personagens ao leitor.

A arte de Takeshi Obata é exótica e insere efetivamente o leitor na cultura e na vida japonesa, a edição de luxo (eu li) é em estilo chiaroscuro, transformando a narrativa em thriller psicológico. Um dos elementos mais interessantes do mangá é o Shinigami Ryuk (Deus da Morte), é o verdadeiro dono do Death Note e é visto somente por Light.  

Ryuk é assustador, alto, tem olhos grandes e petrificados, tem asas e, rosto branco e, representa o desejo e poder de Light tem para matar. A expressão insana e gélida do Deus da Morte demonstra que o seu objetivo é manipular o adolescente. O momento falho é a interação entre Light e a ex-detetive do FBI, Naomi Misora, é gratuita e, precisava ter sido melhor elaborada, pois, o desenrolar dessa parte é convenientemente favorável a Light. 

As sequências de diálogos são longas, por exemplo, as conversas com Ryuk e o assalto ao ônibus planejado por Light, aprofundam temas, por exemplo, o poder, desejo de fazer justiça, os personagens não estão apenas interagindo entre eles, são elementos que simbolizam os conceitos dos autores e estão debatendo com o leitor. Death Note termina no volume seis, então, para a sequência podemos esperar mais tensão do contraponto “Kira” e “L”, e outros Shinigamis entrando no mundo dos humanos.                              
                                           

                                          

Capa da Edição de Luxo                                                                                  


                        


                                                                                                                                                                                                                                                                                        

     Capa da Edição Original


Fonte Google Imagens 


Ficha técnica do livro 

Nome: Death Note - Black Edition Vol. 1

Autor: Tsugumi Ohba, Takeshi Obata 

Editora original: Shueisha Inc. Tokyo 

Data original de publicação: 2003

Editora no Brasil: JBC Editora 

Tradução: Rica Sakata

Data de publicação: 2010

Páginas: 400





 

                                 

sábado, 21 de agosto de 2021

CRÍTICA | O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, DE EMILY BRONTÉ





Escrito por Victor Hugo Sigoli de Campos em 18/08/2021





O Morro dos Ventos Uivantes foi escrito por Emily Bronté em 1846 e, publicado no ano seguinte. Conta uma perturbadora história de amor, entre, o final do século XVIII e o início do século XIX, no interior da Inglaterra, protagonizada por Catherine Earnshaw e seu irmão adotivo Heathcliff Earnshaw. A família Earnshaw é proprietária da residência Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes), nome que descreve a condição climática da região, com muitas neblinas e tempestades, ao lado, está Trushcross Grange, casa da aristocrata família Linton. O livro é referência no gênero literatura de terror ou gótica. 


Leiamos um trecho do capítulo 1: Lockwood narra o momento que conhece Heathcliff.
                            “Estou chegando de visitar o meu proprietário – o único vizinho que me poderá causar desassossegos. Na verdade, esta região é maravilhosa! Acreditar que, em toda a Inglaterra, não encontraria lugar tão distante da agitação mundana. Um paraíso para eremitas. E o sr. Heathcliff e eu formamos um perfeito par de vasos para partilhar fraternalmente este deserto. Que homem extraordinário! Foi enorme a simpatia que senti por ele quando, ao parar o animal, surpreendi seus olhos negros como se ocultando, desconfiados, sob as sobrancelhas, e seus dedos mergulhando ainda mais profundamente nos bolsos de seu colete, ao ouvir o nome com me apresentei.”
O senhor Lockwood é o novo inquilino de Heathcliff que é dono de Trushcross Grange, chegando em sua casa conhece-o, e Catherine Heathcliff (sua nora), Hareton Earnhshaw (seu  sobrinho), Zilá (empregada), e Joseph (empregado). No entanto, os moradores não se gostam, e preterem Heathcliff que impõe sua autoridade com brutalidade e, causando desavenças. Lockwood ao perceber a agressividade que predomina na família, afasta-se e, vai se hospedar na propriedade vizinha, onde conhece Helena Dean (Nelly), que narra a história dos antecessores de Heathcliff.

A família Earnshaw é formada por Hindley Earnshaw, sua esposa e, seus dois filhos, Hindley e Catherine. Um dia o senhor Earnshaw viaja para Liverpool e, ao retornar para a casa traz presentes para os filhos e, também, uma criança que aparentemente não é de origem inglesa e, ele apresenta como Heathcliff. A família recebe mal o seu novo membro, a senhora Earnshaw exaltada ameaça expulsar o garoto de casa, Catherine faz caretas e cospe em Heathcliff, retratando de forma verossímil o racismo e a xenofobia da sociedade inglesa dos séculos, XVIII e XIX.              
Heathcliff cresce em meio às discriminações da família, e é com o jovem Hindley com quem tem muitos conflitos, que vão desde a ofensas a agressões, porque, o patriarca dos Earnshaw insiste em incluir o garoto na sua família. Quando a esposa do senhor Earnshaw morre, às desavenças na família aumentam, e Hindley sai de casa. Na adolescência, Heathcliff apaixona-se por Catherine, mas a moça o rejeita, pois, não é inglês e rico.

Excluído e ressentido, Heathcliff foge de casa à noite, durante uma tempestade e, retorna para Wuthering Heights após vários meses, com muito dinheiro e com o objetivo de reconquistar Catherine que está casada com Edgar Linton o filho do magistrado. Catherine e Heathcliff se reaproximam e, a moça trai o marido – lembrando que no Romantismo, a forte conexão do casal é a consumação do relacionamento – enche-se de ciúme pela relação de Heathcliff e Isabel Linton, à sua cunhada, e trama a separação dos dois, pois, almeja sempre controlar Heathcliff. A relação entre Heathcliff e Isabel é adversa, porque, os dois são opostos, ela delicada e paparicada, ele bruto e opressor, torna-se em uma ameaça à Isabel.

Leiamos um trecho do capítulo 6: Heathcliff conta a Nelly a situação que ele e Catherine se envolveram na propriedade da família Linton.
                                 “ – Eu estava contando que nós ríamos. Os Linton nos ouviram e se lançaram como flechas para a porta. Houve um silêncio e depois um grito: “Mamãe! Papai! Mamãe, venha até aqui! Ó papai!”. Na verdade, eles gritaram algumas coisas mais ou menos assim. Fizemos um barulho dos diabos para aterrorizá-los ainda mais, e depois abandonamos o rebordo da janela, porque alguém estava tirando as trancas, e achamos melhor fugir. Eu puxava Catherine pela mão, apressando-a, quando de repente ela caiu. “Fuja, Heathcliff, fuja!” O diabo do cão tinha agarrado o tornozelo dela, Nelly. Ouvi o terrível rosnado dele. Ela não deu um grito...Não! Teria vergonha de fazê-lo, mesmo que estivesse espetada nos chifres de uma vaca raivosa. Mas eu gritei! Berrei maldições capazes de aniquilar todos os demônios da cristandade. Agarrei uma pedra, enfiei-a na boca do cão e tentei, com todas minhas forças, empurrá-la para dentro da garganta dele. O idiota de um criado apareceu com uma lanterna, gritando: “Aguenta, Skulker, aguenta !” Mas mudou de tom ao ver quem era a presa de Skulker. Apertou-lhe a garganta. A enorme língua arroxeada do animal pendia da boca um meio pé, e seus beiços caídos deixavam correr uma baba sanguinolenta. O homem ergueu Catherine. Ela se sentia mal, não de medo, tenho certeza, mas de dor. Levou-a para dentro. Acompenhei-o xingando-o e ameaçando-o. “O que foi que ele pegou”, perguntou Linton, lá da entrada. “Skulker pegou uma mocinha, meu senhor !” respondeu o criado “e há também aqui um rapaz”, acrescentou, mostrando me o punho, “ que me parece um espião! Com certeza os ladrões queriam fazê-los passar pelas janelas a fim de abrirem as portas para o bando, depois que todos estivessem dormindo, e pudessem nos matar com facilidade. Cale a boca, ladrão indecente! Você vai parar na forca por causa disso. Sr Linton, não largue sua espingarda.” “Não, não, Robert”, disse o velho imbecil. “Os patifes souberam que ontem foi de eu receber pagamentos. Pensaram que poderiam se dar bem. Entre. Tenho uma recepção preparada para eles. Ali, John, prenda a corrente. Jenny, dê um pouco de água a Skulker. Desafiar um magistrado na sua fortaleza...É apenas um menino... no entanto a perversidade está estampada no rosto dele.”          
Os diálogos são pofundos, a autora descreve com detalhes às ações e os locais onde acontece a história, o leitor se sente na mansão Earnshaw, na mansão Linton, ou nas florestas de Wuthering Heights. Heathcliff e Catherine, mesmo quando estão separados não perdem a atração doentia que sentem um pelo outro, predominando sempre o desejo. O amor de Heatcliff e Catherine seria metafísico? Ou seria consequência de manipulação psicológica?

É perceptível que Catherine influencia Heathcliff e, conforme seus desejos, rejeitou-o por ser pobre, mas tornou-o um homem amado. Heathcliff é um personagem misterioso, tirado das ruas de Liverpool pelo senhor Hindley Earnshaw e, aparentemente, de origem africana, asiática, ou americana, possivelmente filho de escravos, ou será filho bastardo de Earnshaw? Será ele bruto ou vingativo?

A obra se passa ao longo de trinta anos e, apresenta os personagens em suas infâncias até tornarem-se adultos, nos envolvemos com suas virtudes e suas imperfeições. As insinuações sobrenaturais em relação a Heathcliff são envolventes, e levam o leitor a questionar a personalidade do protagonista, tornando o livro representante da literatura de terror.

Se Bronté queria que o amor na obra fosse lembrado, como metafísico, então, Catherine e Heathcliff são almas gêmeas? Será que para a autora amar e manipular são intrínsecos? O fato dos personagens serem ambíguos demonstram que eles fazem o bem e o mal e, enfrentam as consequências das suas decisões, tornando-se vítimas das suas próprias paixões. Ainda que, o livro possa dividir opiniões sobre ser uma história realista ou não, é perceptível que autora mesclou as discriminações contra os estrangeiros com elementos sobrenaturais e, ambientada na sociedade inglesa que os compreendia como misteriosos e brutos.   

  

Ficha Técnica

Nome: O Morro dos Ventos Uivantes

Autor: Emily Bronté

Editora: Nova Cultural 

Número de páginas: 286


 

                                     

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